
Após um período de vacas gordas, em que o Ibovespa acumulou forte valorização entre 2003 e setembro de 2008, as vacas rechonchudas dos investidores foram para o brejo. A maioria dos brasileiros ainda não havia passado por nenhuma grande crise até então. Muitos se viram perdidos, alguns saíram da bolsa e os que ficaram viram sua rentabilidade seguir o mesmo caminho das vacas. Hoje, a crise está indo embora e as vacas começaram a voltar para o pasto, trazendo consigo algumas lições.
A InvestMais fez um levantamento e detectou os cinco maiores erros cometidos pelos investidores e pediu para especialistas apontarem as soluções. Em resumo, essas falhas têm a ver com a falta de planejamento e disciplina, desequilíbrio emocional, excesso de confiança e ausência de estratégia. São lições que merecem ser ouvidas, analisadas e colocadas em prática para que você proteja bem suas vacas e as mantenha sempre rendendo muito leite e derivados ou, se preferir, lucros e dividendos.
1º erro – Falta de planejamento
Provavelmente, você conhece alguém que entrou no mercado de ações no primeiro semestre de 2008 entusiasmado com a forte valorização que o Ibovespa vinha apresentando até então. De certo modo, é compreensível, afinal, os últimos anos haviam sido excelentes. Entretanto, muitas pessoas que entraram nesse mercado de touro não contavam com a crise que viria a seguir e investiram recursos que iriam utilizar no curto prazo. O resultado você já sabe.
É por isso que o planejamento é fundamental. O investidor precisa conhecer sua realidade financeira e, para isso, tem de fazer um acompanhamento contínuo de suas receitas e despesas. “Interessa saber qual é o potencial de poupança e investimento mensal, bem como os objetivos da família. Se, por exemplo, não há um objetivo de longo prazo, é preciso que o perfil do investimento seja respeitado, optando por aplicações mais conservadoras e menos arriscadas. Vale orçamento e controle em papel, planilhas ou auxílio de sistemas”, aconselha o consultor financeiro e autor do blog Dinheirama, Conrado Navarro.
O gerente da escola de investimentos Investeducar, Bruno Dias, afirma que a dependência do dinheiro no curto prazo é o maior inimigo do investidor: “Muitos investidores entram no mercado de ações quando vendem algum bem, como um carro ou apartamento. No entanto, esse dinheiro está apenas temporariamente com eles, pois, na maioria dos casos, eles comprarão novos bens para substituir os anteriores. Caso esses investidores entrem em um momento errado, serão forçados a realizar um prejuízo e passarão a ter uma disponibilidade menor para comprar seus bens. Por isso, é necessário planejar e ajustar as finanças para investir constantemente um valor que seja compatível com seu fluxo de renda”.
O segundo erro é consequência do primeiro. Apostar que o touro vai continuar feroz (gíria que representa um mercado em alta) e desprezar a força das patadas do urso (mercado em queda) é um erro primário. “O investidor toma suas decisões com base naquilo que acredita e acaba esquecendo do que o mercado ‘pensa’. E isso se agrava quando ele consegue um resultado positivo, pois, nessa hora, a confiança aumenta”, aponta o professor da XP Educação, Lucas Roque de Castro.
O investidor excessivamente confiante concentra todos os seus recursos no mercado de ações e não possui uma carteira diversificada porque tem certeza de que seu papel ou seus poucos papéis vão sempre se valorizar. “Esse é um dos grandes problemas dos investidores, pois, muitas vezes, acabam concentrando seus recursos em apenas um tipo de aplicação, esquecendo-se de que deveriam ter uma cesta de investimento, com uma parte em renda fixa e outra em variável”, aconselha o consultor financeiro e presidente do Instituto DiSOP, Reinaldo Domingos.
Salvo raras exceções, ninguém consegue ganhar muito em pouco tempo, sempre. Portanto, a melhor alternativa para ter bons e constantes rendimentos é diversificar. “Poupar é guardar dinheiro sempre com diversidade, sempre visando a um equilíbrio. É importante buscar o conhecimento por meio dos gerentes e escolas de investimentos e corretores de valores. Investir é também saber respeitar nossas limitações”, acrescenta Domingos.
3º erro – Seguir padrões de comportamento
O consagrado efeito manada já fez e ainda fará muitas vítimas. Entretanto, evitá-lo é simples: suas decisões de investimento devem vir após uma profunda análise, que precisa avaliar pontos positivos, negativos e perspectivas da empresa em questão. O problema é que isso não ocorre na maioria das vezes.
Navarro sinaliza que, quase sempre, são poucos os que dão uma explicação plausível à decisão de manter em sua carteira as empresas X, Y ou Z: “Não raro, a compra de ativos de tais empresas surge de uma sugestão da corretora ou de algum familiar. Não se trata de criticar a indicação, mas o ato de segui-la sem questioná-la e/ou trabalhar em suas próprias conclusões”.
Seguir o que os outros estão fazendo e não procurar entender o que tal decisão representa são erros gravíssimos. É importante considerar a opinião dos analistas de mercado e da imprensa, mas não se pode considerá-los como donos da verdade absoluta. “O equilíbrio entre o que o investidor lê e pensa e como sustenta sua estratégia deve ser valorizado, já que permite que ele conheça a opinião do mercado e sua possível direção e, ao mesmo tempo, imprima sua forma de atuação para tentar vencê-lo no longo prazo. Investir com sabedoria é aliar o que você sabe ao que pode aprender com a sabedoria dos outros”, afirma Navarro.
Exemplos de que seguir a multidão não é sempre uma boa ideia não faltam. A bolha da Nasdaq, em 2000, talvez seja o melhor case. Milhões de investidores perderam horrores por acreditar e confiar em empresas que ninguém nunca tinha ouvido falar. A irracionalidade desse evento impressiona e serve de lição. “É preciso questionar o efeito manada. Estudar as alternativas de investimento de forma que o investidor possa imprimir sua opinião sobre suas características é fundamental para que seu perfil seja respeitado e o investimento interessante. Não invista só porque está todo mundo investindo, mas porque você se sente confortável e confiante, principalmente por conhecer os detalhes da empresa, seus riscos e chances de sucesso”, adverte Navarro.
O 4º e 5º erro e as dicas dos consultores você confere na edição de outubro da InvestMais.
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Autor(a): João Guilherme Brotto
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