
Will Rogers foi um comediante norte-americano que faleceu em 1935, mas deixou como herança uma frase que persiste até hoje: “Não aposte. Pegue todas as suas economias e compre algumas boas ações, mantenha-as até que subam e, depois, venda-as. Se elas não subirem, não as compre”. Como investidor, Rogers certamente foi um ótimo comediante. A realidade do que ocorre no mercado nem de perto se aproxima do “sábio conselho” do comediante. Portanto, como você nem ninguém podem garantir que uma ação vá sempre dar lucro, a única saída é buscar a diversificação.
Gélio Barbosa, gestor dos fundos de ações e multimercados da Fator Administração de Recursos (FAR), define o ato de diversificar como “reunir uma determinada quantidade de ações com características distintas com a finalidade de minimizar o risco de perdas em momentos desfavoráveis do mercado.” Ele confirma a controvérsia existente na discussão em torno da diversificação e acredita que “a mensagem principal que o investidor deve considerar é que alguma diversificação com o objetivo de reduzir o risco da carteira de ações é importante. Entretanto, deve-se ficar atento ao problema da diversificação excessiva, que além de aumentar os custos de transação, tende a comprometer a eficiência do portfolio e, consequentemente, o retorno final”.
Em outras palavras, você precisa ter um mix de ações de empresas de diferentes e promissores setores para que uma eventual queda de algum papel seja compensada pelo momento mais favorável de outro. No clássico O investidor inteligente, Benjamin Graham dá a dica: “No enorme mercado palheiro, apenas poucas agulhas acabam por gerar ganhos verdadeiramente gigantescos. Quanto maior for a proporção do palheiro que você possui, maiores também serão as possibilidades de encontrar pelo menos uma dessas agulhas”.
O guru sugere que o investidor busque um fundo de ações atrelado ao principal índice do mercado para que a chance de encontrar agulhas seja potencializada. “Possuir o palheiro inteiro pode garantir que você encontre cada agulha e, portanto, capture os retornos de todas as superações. Por que procurar agulhas quando você pode possuir todo o palheiro?”, questiona.
Por que e quando investir em um fundo?
O professor da Investeducar, Eric Martins, recomenda que, antes de buscar qualquer diversificação, o investidor deve avaliar os custos operacionais: “Por exemplo: se você tem menos de 5 mil reais disponíveis para investir mensalmente, é mais interessante buscar um fundo que comprar quatro ou cinco papéis diferentes, pois ele é uma maneira interessante de diversificar e diluir custos”.
Já Barbosa acredita que os fundos são a melhor opção para os investidores iniciantes e também para quem não deseja se preocupar com gerenciar sua carteira. “Aplicar em um fundo de ações é a melhor opção para aqueles investidores iniciantes no mercado, pois o fundo é gerido por profissionais dedicados exclusivamente à missão de administrar uma carteira de ativos que atenda ao objetivo de risco e retorno dos investidores que compõem o referido fundo. Por esse motivo, ele também é recomendado para aqueles investidores que dispõem de pouco tempo para acompanhar o movimento da bolsa de valores, visto que essa atividade naturalmente exige tempo e dedicação por parte do investidor que deseja aplicar em ações por si mesmo. Além disso, ele conta com a facilidade de acompanhar a evolução de suas aplicações por meio dos extratos periódicos”, orienta.
O que avaliar na hora de escolher um fundo de investimentos
E no home broker?
A quantidade ideal de ações é algo que gera muitas dúvidas entre os investidores. Apesar de existirem alguns estudos na área de finanças que apontam um determinado número de ações como sendo o ideal, na prática, isso acaba se tornando muito subjetivo e impreciso, afinal, perfis e estratégias diferentes exigem quantidades de ações também diferentes. Uma técnica, no entanto, pode ser útil.
Os modelos CAPM e Beta
Em 1952, o economista norte-americano Harry Markowitz desenvolveu a Teoria Moderna do Portfolio, que se baseava no uso da estatística para compor portfolios com o mínimo de risco possível. Com essa teoria, Markowitz chegou à conclusão de que uma carteira é composta de um conjunto de ativos financeiros. Logo, sua lucratividade é formada pela soma dos retornos de cada ativo. Portanto, o retorno da carteira vem da lucratividade de cada ativo, independentemente. Assim, a volatilidade da carteira se torna menor à medida que mais papéis a componham. Até aí, nenhuma novidade.
Mas a Teoria de Markowitz, que viria a ganhar o prêmio Nobel em 1990, foi a base para a criação do Modelo de Precificação de Ativos Financeiros, o CAPM, sigla originária do nome em inglês. Desenvolvido no início dos anos 60 por quatro economistas norte-americanos, o CAPM utiliza o indicador Beta para medir a volatilidade de um ativo.
No livro O mercado de ações em 25 episódios, Paulo Portinho, do Instituto Nacional dos Investidores (INI), simplifica a utilização do CAPM. “A lógica é simples. Os estatísticos comparam a movimentação do Ibovespa dia a dia com determinada ação. Dessa comparação, eles extraem alguns indicadores que demonstram o comportamento de determinado ativo em relação ao do Ibovespa”, esclarece Portinho, que exemplifica esses indicadores no quadro a seguir:
|
Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe mais que o índice. |
Beta > 1 |
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Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe exatamente na mesma proporção. |
Beta = 1 |
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Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe, mas menos que o índice. |
0 < Beta < 1 |
|
Quando o Ibovespa sobe, a ação cai, mas menos que o índice. |
-1 < Beta <0 |
|
Quando o Ibovespa sobe, a ação cai na mesma proporção que o índice. |
Beta = -1 |
|
Quando o Ibovespa sobe, a ação cai mais que o índice. |
Beta < -1 |
Para exemplificar como o indicador Beta permite a diversificação de uma carteira, acompanhe, a seguir, o desempenho de uma carteira hipotética proposta por Portinho:
|
Ação A
|
Ação B |
Ibovespa |
Ação A |
Ação B |
|
Beta > 1 |
0 < Beta < 1 |
sobe |
sobe mais |
sobe menos |
|
Beta > 1 |
0 < Beta <1 |
cai |
cai mais |
cai menos |
|
Beta > 1 |
Beta > 1 |
sobe |
sobe mais |
sobe mais |
|
Beta > 1 |
Beta > 1 |
cai |
cai mais |
cai mais |
|
0 < Beta < 1 |
0 < Beta < 1 |
sobe |
sobe menos |
sobe menos |
|
Beta = 1 |
Beta = 1 |
sobe |
sobe igual |
sobe igual |
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Beta > 1 |
Beta < -1 |
cai |
cai mais |
sobe mais |
|
Beta < -1 |
Beta < -1 |
sobe |
cai mais |
cai mais |
Com base nesse estudo, o investidor pode escolher uma carteira com alta ou baixa volatilidade em relação ao índice. “Se escolher Betas superiores a 1, sua carteira deverá subir mais que o índice, mas também deverá cair mais que o Ibovespa. Você pode ainda escolher Betas com sinais trocados de modo que, quando a bolsa subir, uma ação deverá alavancar e a outra cair”, explica Portinho, que aconselha: “Vale frisar que é muito difícil encontrar ativos com Beta negativo em qualquer que seja o mercado, sendo que o mais comum, com relação à diversificação, é escolher ativos com Beta positivo, alguns maiores e outros menores que 1”.
É importante ressaltar que a diversificação deve atender ao interesse pessoal do investidor, pois ela está diretamente ligada ao perfil de cada um. O ideal é avaliar as seguintes questões antes de tomar qualquer decisão:
Leia a reportagem na íntegra na edição de outubro da InvestMais.
Autor(a): João Guilherme Brotto
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