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28/10/2009

Para onde vão os ovos?

Qual é a melhor forma de diversificar sua carteira de ações?

fotomateria

A polêmica em torno da máxima “coloque os ovos em uma cesta e depois a vigie” é imensa. Muitos célebres investidores como Peter Lynch – que chegou a ter mais de 1,4 mil ações diferentes em seu fundo Fidelity Magellan, um dos mais rentáveis da história – pensam totalmente ao contrário. No entanto, Warren Buffett, por exemplo, é adepto do uso de uma cesta para poucos e bons ovos. Diante de tanta discrepância, o que é melhor para você? Qual é a melhor forma de diversificar sua carteira de ações?

 

Will Rogers foi um comediante norte-americano que faleceu em 1935, mas deixou como herança uma frase que persiste até hoje: “Não aposte. Pegue todas as suas economias e compre algumas boas ações, mantenha-as até que subam e, depois, venda-as. Se elas não subirem, não as compre”. Como investidor, Rogers certamente foi um ótimo comediante. A realidade do que ocorre no mercado nem de perto se aproxima do “sábio conselho” do comediante. Portanto, como você nem ninguém podem garantir que uma ação vá sempre dar lucro, a única saída é buscar a diversificação.

 

Gélio Barbosa, gestor dos fundos de ações e multimercados da Fator Administração de Recursos (FAR), define o ato de diversificar como “reunir uma determinada quantidade de ações com características distintas com a finalidade de minimizar o risco de perdas em momentos desfavoráveis do mercado.” Ele confirma a controvérsia existente na discussão em torno da diversificação e acredita que “a mensagem principal que o investidor deve considerar é que alguma diversificação com o objetivo de reduzir o risco da carteira de ações é importante. Entretanto, deve-se ficar atento ao problema da diversificação excessiva, que além de aumentar os custos de transação, tende a comprometer a eficiência do portfolio e, consequentemente, o retorno final”.

Em outras palavras, você precisa ter um mix de ações de empresas de diferentes e promissores setores para que uma eventual queda de algum papel seja compensada pelo momento mais favorável de outro. No clássico O investidor inteligente, Benjamin Graham dá a dica: “No enorme mercado palheiro, apenas poucas agulhas acabam por gerar ganhos verdadeiramente gigantescos. Quanto maior for a proporção do palheiro que você possui, maiores também serão as possibilidades de encontrar pelo menos uma dessas agulhas”.

O guru sugere que o investidor busque um fundo de ações atrelado ao principal índice do mercado para que a chance de encontrar agulhas seja potencializada. “Possuir o palheiro inteiro pode garantir que você encontre cada agulha e, portanto, capture os retornos de todas as superações. Por que procurar agulhas quando você pode possuir todo o palheiro?”, questiona.

 

Por que e quando investir em um fundo?

O professor da Investeducar, Eric Martins, recomenda que, antes de buscar qualquer diversificação, o investidor deve avaliar os custos operacionais: “Por exemplo: se você tem menos de 5 mil reais disponíveis para investir mensalmente, é mais interessante buscar um fundo que comprar quatro ou cinco papéis diferentes, pois ele é uma maneira interessante de diversificar e diluir custos”.

Já Barbosa acredita que os fundos são a melhor opção para os investidores iniciantes e também para quem não deseja se preocupar com gerenciar sua carteira. “Aplicar em um fundo de ações é a melhor opção para aqueles investidores iniciantes no mercado, pois o fundo é gerido por profissionais dedicados exclusivamente à missão de administrar uma carteira de ativos que atenda ao objetivo de risco e retorno dos investidores que compõem o referido fundo. Por esse motivo, ele também é recomendado para aqueles investidores que dispõem de pouco tempo para acompanhar o movimento da bolsa de valores, visto que essa atividade naturalmente exige tempo e dedicação por parte do investidor que deseja aplicar em ações por si mesmo. Além disso, ele conta com a facilidade de acompanhar a evolução de suas aplicações por meio dos extratos periódicos”, orienta.

 

O que avaliar na hora de escolher um fundo de investimentos

 

  • Leia o prospecto e/ou regulamento.
  • Verifique se os objetivos do fundo estão de acordo com os seus.
  • Saiba previamente quais são os ativos que compõem o portfolio.
  • Avalie os valores mínimos de aplicação/resgate.
  • Analise os custos, como taxa de administração, performance, entre outros.
  • Verifique o histórico de rentabilidade do gestor.

 

E no home broker?

A quantidade ideal de ações é algo que gera muitas dúvidas entre os investidores. Apesar de existirem alguns estudos na área de finanças que apontam um determinado número de ações como sendo o ideal, na prática, isso acaba se tornando muito subjetivo e impreciso, afinal, perfis e estratégias diferentes exigem quantidades de ações também diferentes. Uma técnica, no entanto, pode ser útil.

 

Os modelos CAPM e Beta

Em 1952, o economista norte-americano Harry Markowitz desenvolveu a Teoria Moderna do Portfolio, que se baseava no uso da estatística para compor portfolios com o mínimo de risco possível. Com essa teoria, Markowitz chegou à conclusão de que uma carteira é composta de um conjunto de ativos financeiros. Logo, sua lucratividade é formada pela soma dos retornos de cada ativo. Portanto, o retorno da carteira vem da lucratividade de cada ativo, independentemente. Assim, a volatilidade da carteira se torna menor à medida que mais papéis a componham. Até aí, nenhuma novidade.

Mas a Teoria de Markowitz, que viria a ganhar o prêmio Nobel em 1990, foi a base para a criação do Modelo de Precificação de Ativos Financeiros, o CAPM, sigla originária do nome em inglês. Desenvolvido no início dos anos 60 por quatro economistas norte-americanos, o CAPM utiliza o indicador Beta para medir a volatilidade de um ativo.

No livro O mercado de ações em 25 episódios, Paulo Portinho, do Instituto Nacional dos Investidores (INI), simplifica a utilização do CAPM. “A lógica é simples. Os estatísticos comparam a movimentação do Ibovespa dia a dia com determinada ação. Dessa comparação, eles extraem alguns indicadores que demonstram o comportamento de determinado ativo em relação ao do Ibovespa”, esclarece Portinho, que exemplifica esses indicadores no quadro a seguir:

 

Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe mais que o índice.

Beta > 1

Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe exatamente na mesma proporção.

Beta = 1

Quando o Ibovespa sobe, a ação sobe, mas menos que o índice.

0 < Beta < 1

Quando o Ibovespa sobe, a ação cai, mas menos que o índice.

-1 < Beta <0

Quando o Ibovespa sobe, a ação cai na mesma proporção que o índice.

Beta = -1

Quando o Ibovespa sobe, a ação cai mais que o índice.

Beta < -1

 

Para exemplificar como o indicador Beta permite a diversificação de uma carteira, acompanhe, a seguir, o desempenho de uma carteira hipotética proposta por Portinho:

 

Ação A

 

Ação B

Ibovespa

Ação A

Ação B

Beta > 1

0 < Beta < 1

sobe

sobe mais

sobe menos

Beta > 1

0 < Beta <1

cai

cai mais

cai menos

Beta > 1

Beta > 1

sobe

sobe mais

sobe mais

Beta > 1

Beta > 1

cai

cai mais

cai mais

0 < Beta < 1

0 < Beta < 1

sobe

sobe menos

sobe menos

Beta = 1

Beta = 1

sobe

sobe igual

sobe igual

Beta > 1

Beta < -1

cai

cai mais

sobe mais

Beta < -1

Beta < -1

sobe

cai mais

cai mais

 

Com base nesse estudo, o investidor pode escolher uma carteira com alta ou baixa volatilidade em relação ao índice. “Se escolher Betas superiores a 1, sua carteira deverá subir mais que o índice, mas também deverá cair mais que o Ibovespa. Você pode ainda escolher Betas com sinais trocados de modo que, quando a bolsa subir, uma ação deverá alavancar e a outra cair”, explica Portinho, que aconselha: “Vale frisar que é muito difícil encontrar ativos com Beta negativo em qualquer que seja o mercado, sendo que o mais comum, com relação à diversificação, é escolher ativos com Beta positivo, alguns maiores e outros menores que 1”.

É importante ressaltar que a diversificação deve atender ao interesse pessoal do investidor, pois ela está diretamente ligada ao perfil de cada um. O ideal é avaliar as seguintes questões antes de tomar qualquer decisão:

 

  • Valor – Quanto você pode investir?
  • Prazo – Por quanto tempo pode manter seu dinheiro aplicado?
  • Risco – Qual é o risco que está disposto a correr?
  • Retorno – Qual é o retorno esperado?
  • Liquidez – Por quanto tempo você pode deixar seu dinheiro aplicado?

 

Leia a reportagem na íntegra na edição de outubro da InvestMais.

 


Autor(a): João Guilherme Brotto


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