Muito se fala do quanto o mercado pode ser influenciável e temperamental. O setor de serviços financeiros parece ser a mais recente vítima desse comportamento. Antes visto como uma excelente alternativa, uma vez que se aproveita do potencial de crescimento do mercado consumidor doméstico, do incremento da bancarização no País e dos avanços dos meios de pagamento eletrônicos que fizeram, no passado, com que a média de crescimento do setor estivesse sempre acima do Ibovespa, ele agora é visto com cautela pelos analistas. O motivo está nas recomendações governamentais feitas para o segmento. Mas será que elas são realmente o bicho de sete cabeças sinalizado pelo mercado?
Ana Carolina Boyadjian, analista da Lafis, afirma que o setor apresentou um crescimento em torno de 18% até outubro de 2009, atingindo R$351.577 milhões para todas as bandeiras de cartão de débito, crédito e rede de lojas. O crescimento em 2009, entretanto, deve ficar abaixo do apresentado em 2008, quando o segmento atingiu expansão de 24%. “Deve-se considerar que, neste ano, os consumidores se tornaram um pouco mais cautelosos devido à situação de crise. O índice de inadimplência, porém, aumentou ao longo do ano, atingindo 36,3% entre faturas não pagas e pagas parcialmente, o que faz com que as administradoras de cartão provisionem um valor maior para devedores duvidosos, em vez de apropriar o lucro”, explica. Embora o número de inadimplentes tenha aumentado, o valor da dívida média diminuiu de R$409 para R$366,31.
Segundo a analista da Lafis, o setor merece a atenção dos investidores por se tratar de um meio de pagamento que facilita a obtenção de crédito do consumidor. “Existe uma facilidade das operadoras em acompanhar os gastos e obter o perfil de cada nicho para o lançamento de novos produtos e, assim, implementar políticas de fidelização”, observa.
Apesar do desempenho no passado ter sido expressivo, agora o mercado analisa com cautela as empresas de cartões de crédito presentes na bolsa de valores, sobretudo a VisaNet e a Cielo, que juntas detêm 80% do mercado e estão entre as 15 maiores adquirentes do mundo. O motivo está nos riscos de regulamentação do setor. No fim de setembro, as equipes técnicas do Banco Central do Brasil (BC), da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça (SDE) e da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (Seae) divulgaram uma análise sobre a indústria de cartões de pagamentos no Brasil e encaminharam as sugestões aos três ministros respectivos. O documento sugeriu:
Procurada pela InvestMais, a assessoria do Bacen comunicou que a entidade não está se pronunciando sobre o assunto porque ainda não tem definições de como essas recomendações serão cobradas. Cabe aos ministros definirem o cronograma de implementação das medidas. O Bacen programa divulgar um novo estudo sobre o setor ainda neste ano e que, até o fechamento desta edição, ainda não havia sido publicado. No período anterior à divulgação de setembro, as ações da VisaNet e da Redecard reagiram mal às expectativas. Os papéis ON da Redecard caíram 2,37%, evidenciando uma das maiores baixas do Ibovespa naquele dia. E a VisaNet ON, que não faz parte do índice, ficou negativa em 3,11%.
Rodney Otero Melhados, analista da Planner Corretora, explica por que o mercado reage mal a tais regulamentações: “Ele teme que o governo tome medidas mais radicais, que causem uma ruptura no sistema e nas perspectivas de crescimento futuras. Esse é o maior risco que pesa em ambas as empresas”. Apesar do risco, ele não acredita em mudanças muito expressivas. “Não é o momento para que o governo cause essa ruptura. O principal objetivo é o incremento da competição no mercado de adquirentes das operações, e isso, nesse momento, já está no preço das ações. O que não está no preço é se caso os órgãos reguladores resolverem forçar as empresas a venderem unidades de negócios ou a fazerem uma desverticalização, o que, aí sim, poderia provocar queda nas ações”, opina.
Ana Carolina revela que a expectativa é que aumente a concorrência no setor, diminuindo as taxas de crescimento. “Entretanto, esse movimento ocorrerá de forma bem gradativa, uma vez que ainda existem poucas operadoras que têm interesse em ingressar nesse mercado. O lojista terá mais poder de negociação da bandeira, podendo utilizar o que lhe cobrar a menor taxa”, diz a analista.
O que as principais empresas do setor têm a dizer sobre as mudanças? Confira, no quadro abaixo, as respostas das diretorias de RI da Redecard e da VisaNet:
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Redecard |
VisaNet |
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Abertura da atividade de credenciamento |
A tendência é que surjam novas credenciadoras, fazendo com que todas (atuais e entrantes) passem a credenciar diversas bandeiras. A Redecard se adiantou nesse aspecto, pois já aceita 15 bandeiras de cartões. Só neste ano a empresa anunciou parcerias com a bandeira Cabal, a empresa paulista de refeições corporativas Sapore e a internacional Discover. |
A abertura é uma coisa que no próprio prospecto da IPO a gente já mencionava. Se a IPO saísse de acordo com aquilo que tínhamos planejado, haveria a quebra da exclusividade a partir de julho de 2010. Quando a empresa decidiu ir para o mercado de capitais, ela já estava com isso no cenário e sabia que teria de se preparar para esse modelo mais competitivo. |
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Interoperabilidade de redes e de POS (terminal de captura de transações) |
É uma consequência natural à abertura da atividade de credenciamento. Entre janeiro e setembro, a Redecard fez a substituição de 150 mil POS antigos por versões que aceitam receber dados de um número maior de plásticos, ou seja, a empresa está se preparando para atuar num mercado ainda mais competitivo. |
A interoperabilidade de redes e de POS está muito relacionado à abertura da exclusividade, porque o compartilhamento do POS já aconteceria quase que automaticamente, uma vez que as duas adquirentes podem passar qualquer bandeira. Além da máquina, a VisaNet oferece uma série de serviços para os estabelecimentos que alugam suas máquinas. Ela faz um acordo de serviço que prevê que, em grandes centros, o terminal seja trocado em até duas horas se apresentar problemas. Além disso, faz a provisão de bobinas para a máquina, o extrato da conta vem quantas vezes o cliente quiser e há um call center disponível 24 horas, nos sete dias da semana. |
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Neutralidade nas atividades de compensação e liquidação |
O processamento final das operações deverá ser feito pela Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP). As empresas precisam continuar tendo acesso às informações sobre os estabelecimentos. A mecânica poderá ser feita por um clearing independente, mas será necessário um tempo maior, de dois a três anos, para a adoção da exigência feita pelo governo. |
A gente não tem problema algum com isso e chegamos, até mesmo, a pensar em operar com a CIP. Essa mudança não tem um impacto muito grande. |
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Fortalecimento de esquemas nacionais de cartões de débito |
O uso de bandeiras nacionais reduzirá os custos das transações. É possível que surjam bandeiras nacionais a partir de um movimento orquestrado por vários bancos ou liderado por uma única instituição. |
Só temos a ganhar com esse novo dispositivo. Hoje, como o débito está com a logomarca de uma bandeira, precisamos pagar uma quantia para a marca, embora não haja qualquer tipo de transação com ela. A gente acha que a criação de uma marca local irá baratear esse produto e passar isso para o consumidor final, o que gerará um novo estímulo para o uso do cartão de débito. |
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Transparência na definição da tarifa de intercâmbio |
A avaliação da indústria, compartilhada com o BC, SDE e Seae, é que intervenções com o objetivo de definir esses preços podem limitar a concorrência e, portanto, não há necessidade de alterações nesse sentido. |
Esse é um negócio entre a marca Visa, o governo e os bancos. Quem define a taxa de intercâmbio não somos nós da VisaNet, a gente apenas negocia com o estabelecimento comercial a taxa de desconto bruta e uma parte dela vai para o banco, que é justamente a do intercâmbio, e a outra fica conosco. O governo não quer regular isso, ele apenas quer que exista uma maior transparência nesse ponto. |
Diante das possíveis regulamentações, vários analistas preferiram não opinar sobre o setor agora. Eles aguardam um momento de menor instabilidade para fazer recomendações relacionadas à VisaNet e à Redecard. Rodney Melhados, por outro lado, não se diz pessimista com o setor, apenas cauteloso. Para ele, tanto a VisaNet quanto a Redecard têm pontos fortes que merecem ser considerados para a compra de ações.
Num confronto entre VisaNet e Redecard, Melhados considera que a VisaNet tem um potencial de crescimento um pouco maior a curto prazo, em virtude de ela ter entrado no segmento de antecipação de recebíveis há apenas um ano, e irá avançar de forma significativa nesse mercado, no qual a Redecard já atua há bastante tempo. Além disso, ela tem a maior rede de credenciados, que processa o maior volume financeiro de transações. “Só que a VisaNet já está sendo negociada, devido a isso, com um prêmio em relação à Redecard, então uma coisa acaba compensando a outra”, explica o representante da Planner.
Por isso, quando questionado sobre qual é a sua preferência do setor, Melhados opta pela Redecard: “Ela está com um negócio um pouco mais consolidado, tem uma estrutura de capital mais enxuta do que a VisaNet, que possui um grande controlador”.
Ana Carolina prefere não eleger qual é a melhor para o momento, mas evidencia os pontos atrativos das duas empresas. Para ela, a VisaNet se destaca por ter mais de 1,6 milhão de estabelecimentos credenciados, cobrindo 97,5% dos municípios brasileiros. Além disso, a empresa comemorou no 3T09 um aumento de 21,3% no Volume Financeiro de Transações em relação ao 3T08, atingindo R$54,2 bilhões. A receita operacional líquida no mesmo período foi de R$924,4 milhões, um crescimento de 28%. O lucro líquido incrementou em 34,8%, atingindo R$396,7 milhões. Ela relembra, por outro lado, que a liberação da exclusividade com a Visa poderá atrapalhar o crescimento da empresa no próximo ano.
Já a Redecard destacou no 3T09, segundo a analista, um lucro líquido recorrente de R$333 milhões, apresentando um crescimento de 18,1%, quando comparado ao 3T08, e uma receita líquida operacional de R$755,5 milhões, incremento de 15,8% em relação ao 3T08. A Redecard já não tem contrato de exclusividade com a MasterCard e almeja englobar no futuro também a bandeira Visa. A diretoria de RI da Redecard revela ainda que, de janeiro a outubro de 2009, as ações RDCD3 ocuparam a 14ª posição entre as mais negociadas na Bovespa, medidas por volume financeiro. As ações contam com um free-float (ações em circulação) de aproximadamente 50% do capital total.
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Redecard |
VisaNet |
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A Redecard é uma das líderes da indústria de cartões de pagamento no mercado brasileiro e, atualmente, a principal credenciadora das bandeiras MasterCard e Diners Club International no Brasil. Ela é responsável pelo credenciamento de estabelecimentos para a aceitação de cartões de pagamento, bem como pela captura, transmissão, processamento e liquidação financeira das transações realizadas com cartões de crédito e débito dessas bandeiras. Ingressou recentemente no Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI, sigla em inglês) em sua edição 2009/2010. O DJSI é formado por um seleto grupo de 317 empresas de 27 países, sendo apenas 7 brasileiras, e a Redecard foi a única nova empresa a ingressar nessa edição. Ele evidencia que as práticas de governança corporativa e incentivo à responsabilidade socioambiental da companhia são reconhecidas internacionalmente pelo mercado de capitais. Além disso, a Redecard atingiu, em setembro, um marco ainda não alcançado por adquirente algum em toda a América do Sul: a certificação do padrão Payment Card Industry Data Security Standard (PCI DSS), que reúne as maiores bandeiras internacionais de cartões de pagamentos para aumentar a segurança das transações eletrônicas e proteger os dados dos portadores de cartões. Fonte: www.redecard.com.br/ri |
A VisaNet é a adquirente líder do setor de cartões de pagamento no mercado brasileiro, em termos de Volume Financeiro de Transações, detendo participação de 46,8% no mercado que movimentou R$375,4 bilhões em 2008, de acordo com os dados divulgados pela ABECS. As principais fontes de receitas da VisaNet são decorrentes da captura, transmissão, processamento e liquidação financeira das transações realizadas com cartões de crédito e débito da bandeira Visa, além das receitas com aluguel de POS e antecipação de recebíveis aos seus clientes. A companhia acredita que sua liderança se reflete também em um maior volume financeiro de transações por POS, volume esse que foi de R$36,4 mil nos primeiros três meses de 2009 e de R$128,9 mil em 2008. Ela possui a maior cobertura no território nacional, abrangendo 97,5% e atendendo a 1,6 milhão de estabelecimentos, além de estar presente em 5427 dos 5.564 municípios brasileiros. A VisaNet recebeu, pela quarta vez consecutiva, o prêmio Melhor Empresa de Serviços Especializados do Brasil pelo anuário Valor 1000, do jornal Valor Econômico, além dos prêmios Melhores e Maiores da revista Exame e o prêmio As 200 Maiores Empresas em TI da revista InfoExame. Fonte: www.VisaNet.com.br/ri
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Dados |
9/2008 |
12/2008 |
9/2009 |
6/11/2009 |
|
Preço / Lucro |
15,9 |
14,5 |
13,4 |
13,3 |
|
Preço / Valor Patrimonial |
20,2 |
23,9 |
17,4 |
17,3 |
|
Price Sales Ratio |
8,8 |
8,4 |
7,7 |
7,7 |
|
Dividend yield |
5,3% |
4,3% |
6,2% |
6,3% |
|
Valor de Mercado |
16,7 B |
17,3 B |
18,3 B |
18,2 B |
|
Dívida Bruta / Patrimonial |
39,8% |
26,9% |
17,7% |
|
|
Dividendo / Ação US$ |
1,3175 |
1,0925 |
1,7024 |
1,7024 |
|
Dados |
6/2008 |
12/2008 |
6/2009 |
|
Ativo Total |
11,8 B |
14,6 B |
14,0 B |
|
Patrimônio Líquido |
827,9 M |
723,0 M |
1,1 B |
|
Receita Líquida Operacional |
1,4 B |
2,1 B |
1,8 B |
|
Lucro Operacional Ebit |
797,3 M |
1,2 B |
1,1 B |
|
Lucro Líquido |
816,5 M |
1,2 B |
993,4 M |
|
Dados |
9/2008 |
12/2008 |
9/2009 |
6/11/2009 |
|
Preço / Lucro |
– |
17,3 |
– |
– |
|
Preço / Valor Patrimonial |
– |
151,9 |
40,4 |
38,1 |
|
Price Sales Ratio |
– |
8,4 |
– |
– |
|
Dividend yield |
– |
– |
1,4% |
1,4% |
|
Valor de Mercado |
– |
24,2 B |
24,0 B |
22,7 B |
|
Dívida Bruta / Patrimonial |
– |
0,3% |
– |
– |
|
Dividendo / Ação US$ |
– |
– |
0,2406 |
0,2406 |
|
Dados |
9/2008 |
12/2008 |
9/2009 |
|
Ativo Total |
– |
2,2 B |
2,1 B |
|
Patrimônio Líquido |
– |
159,1 M |
593,9 M |
|
Receita Líquida Operacional |
– |
2,9 B |
2,5 B |
|
Lucro Operacional Ebit |
– |
2,0 B |
1,5 B |
|
Lucro Líquido |
– |
1,4 B |
1,1 B |
Observação: VisaNet entrou no mercado de ações em junho de 2009.
Fonte: GuiaInvest
Acesso: 6 de novembro
Autor(a): Larissa Moutinho
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