
Quando se pensa em um metal precioso, o ouro costuma ser um dos primeiros que vem à mente. Conhecido desde a Antiguidade, ele foi um dos primeiros metais a serem trabalhados pelo homem e serviu como base para a composição de muitas moedas ao longo da história. No século 21, entretanto, especialistas apostam que outra substância química será digna de se tornar moeda de troca: a água. Cada vez mais escassa, ela tem sido alvo de várias discussões ao redor do mundo, pois, sem a preservação desse bem, não há vida. Para quem gosta de investimentos, no entanto, a importância da água pode ir além e refletir também uma boa oportunidade de fazer dinheiro. Você já pensou em investir em saneamento básico? Se ainda não cogitou tal hipótese em seu portfolio de ações, talvez essa seja a hora de abrir os olhos para esse mercado.
O Brasil tem vivido uma euforia devido às realizações da Copa do Mundo e das Olimpíadas. A atenção inicial dos analistas perpassa por questões de segurança, logística e construção. Entretanto, outras áreas também deverão receber atenção do governo até 2016, já que o principal objetivo é promover o País lá fora. Diante disso, o saneamento brasileiro também precisará melhorar, e muito. Em abastecimento de água, as companhias estaduais de saneamento básico atendem atualmente a cerca de 76% da população urbana do País. Quando o assunto é esgoto sanitário, no entanto, o número cai para aproximadamente 60% de coleta nas áreas de atuação das companhias e o tratamento atinge 80% desse volume coletado.
Para o superintendente executivo da Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais (Aesbe), Walder Suriani, o saneamento está incluído nos temas importantes que envolvem a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas e deverá merecer a máxima atenção política por parte dos governantes. “A Associação entende que isso não é difícil, bastando somente continuarem os investimentos do PAC, alocados nos últimos três anos, num montante próximo de R$10 bilhões anualmente”, revela.
Segundo Suriani, nos aspectos de financiamento, 2009 foi um ano muito bom e 2010 promete caminhar no mesmo patamar. De olho nesse potencial, a InvestMais resolveu comparar as ações de duas gigantes do setor: a Copasa e a Sabesp.
Quem é quem
Em 1971, o Governo Federal deu início ao Plano Nacional de Saneamento (Planasa), no qual foram criadas as companhias estaduais de saneamento. Em São Paulo, como resultado da fusão das empresas e autarquias que até então gerenciavam os serviços de água e coleta de esgotos nos municípios, surgiu a Sabesp. E, em Minas Gerais, a então Companhia Mineira de Água e Esgotos (Comag) se uniu ao Departamento Municipal de Águas e Esgoto (Demae), responsável pela prestação dos serviços de saneamento básico no município de Belo Horizonte, dando início à Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Acompanhe, na tabela, o que cada uma oferece aos habitantes dos dois estados:
Sabesp |
Copasa |
|
Empresa de economia mista e capital aberto, a Sabesp tem no governo do estado seu principal acionista e conta com ações negociadas nas bolsas de valores de São Paulo e Nova Iorque. A Sabesp planeja, executa e opera sistemas de água e esgotos, preservando o meio ambiente e melhorando as condições de vida da população do estado de São Paulo. Hoje, ela atende a 60% da população do estado, prestando serviços a 365 dos 645 municípios e fornecendo água tratada para outros seis, que fazem sua própria distribuição. Desde 2007, a Sabesp está autorizada a expandir geograficamente o escopo de seu negócio e adicionar novos tipos de serviços relativos ao saneamento ambiental e energia. Além de manter os índices alcançados até agora, para acompanhar o ritmo de crescimento dos municípios, a Sabesp deseja ir além e traçou um plano de expansão para a companhia. De 2009 até 2013, investirá R$8,6 bilhões para continuar levando água a toda a população das cidades que atende, além de ampliar os índices de coleta e tratamento de esgotos. Suas metas até 2013 são oferecer:
Fonte: www.sabesp.com.br |
As principais atividades da Copasa compreendem serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário, incluindo planejamento, elaboração de projetos, execução, ampliação, remodelagem e exploração de serviços de saneamento. De acordo com os últimos dados, de junho de 2009, a Copasa possui concessões para prestação de serviços de abastecimento de água em 611 municípios, atendendo a, aproximadamente, 12,6 milhões de clientes e concessões para prestação de serviços de esgotamento sanitário em 194 municípios, com cerca de 7,1 milhões de clientes. Adicionalmente, a companhia conduz atividades de cooperação técnica no Brasil – em diversos municípios mineiros, até mesmo naqueles em que a empresa não possui concessões, e em Cuiabá – e no exterior, por meio de acordos com o Paraguai e Angola. Visando reforçar a presença e posição de mercado em Minas Gerais, aproveitar as oportunidades de negócios, fortalecer a marca e relacioná-la a serviços e produtos de elevado padrão de qualidade, a companhia criou as subsidiárias integrais Copanor, Copasa Águas Minerais e Copasa Serviços de Irrigação em 2007.
Fonte: http://www.copasa.com.br/ri/ |
Confronto
Na opinião do superintendente da Aesbe, ambas são empresas com grande porte e que prestam um excelente serviço de saneamento aos seus clientes. “Elas estão caminhando para a universalização dos serviços em suas áreas de atuação e, com certeza, conseguirão cumprir as metas para atender à Copa do Mundo e às Olimpíadas. Talvez, os pontos mais fortes sejam a rápida adaptação ao mercado e a absorção e aplicação de tecnologias e processos mais eficientes e também a capacidade de mobilização de recursos para investimentos”, aponta Suriani.
A Copasa sai na frente quando o assunto é sustentabilidade. Ela foi eleita a Empresa de Valor 2009, premiação concedida à melhor companhia brasileira do ano pelo jornal Valor econômico, e também conquistou, pelo segundo ano consecutivo, o título de melhor empresa do setor de Água e Saneamento do Brasil. Para Paula Vasques Bittencourt, diretora-financeira e de relações com investidores da Copasa, “os prêmios recebidos atestam a eficiência da gestão da companhia, que foi a melhor em vários aspectos econômico-financeiros avaliados: crescimento sustentável, rentabilidade, liquidez corrente, giro do ativo, margem da atividade, entre outros. A Copasa ainda se destacou nos aspectos relacionados às políticas de desenvolvimento ambiental e humano”.
A empresa teve como destaque no último balanço divulgado uma receita operacional líquida de R$1,63 bilhão nos nove primeiros meses de 2009, contra R$1,52 bilhão no mesmo período do ano anterior, um crescimento de 7,4%. O Ebitda nos primeiros nove meses do ano foi de R$704 milhões, contra R$643 milhões no mesmo período de 2008. A margem Ebitda nesse mesmo período foi de 42% e o lucro líquido acumulado em 2009 foi de R$362 milhões, contra R$349 milhões nos nove primeiros meses de 2008.
A concorrente Sabesp, por sua vez, apresentou receita operacional líquida de R$4,9 bilhões, contra R$4,6 bilhões no nono mês de 2008, variação de 5,6%. O Ebitda foi de R$1,9 bilhão, 9,5% inferior aos nove primeiros meses de 2008. A margem Ebitda ficou em 38,9% e o lucro líquido, em R$916,6 milhões, ante os R$894,8 milhões do nono mês de 2008. No quesito lucro por ação, o desempenho da Sabesp foi um pouco maior que o da Copasa: R$4,02 no nono mês de 2009, contra os R$3,14 apresentados pela mineira.
Marcio Prado e Maria Carolina Carneiro, analistas do Santander, demonstraram decepção com os dados divulgados no último balanço da Sabesp. “A Sabesp divulgou resultados do 3T09 abaixo do esperado, devido ao fraco desempenho dos volumes (crescimento de 0,7% do volume de vendas total) e custos de manutenção adicionais não recorrentes. A receita líquida totalizou R$1.629 milhões, 2,3% maior A/A e 4% abaixo da nossa projeção. O crescimento inexpressivo foi motivado pelo desempenho abaixo do esperado do volume de vendas em função de temperaturas médias menores que as esperadas no trimestre (as quais motivaram uma redução no consumo de água) e queda nos volumes, devido à menor demanda do segmento industrial. As vendas de água cresceram 0,2% A/A, enquanto os volumes de esgoto aumentaram 1,3% A/A”, descreveram os analistas, por meio de relatório. Apesar disso, eles recomendam a compra de ações da companhia, com preço-alvo em R$39,90.
Os resultados da Copasa, por outro lado, animaram um pouco mais o analista da Fator Corretora Vicente Falanga Neto. “O resultado da Copasa no 3T09 foi bom, acima das nossas estimativas e do consenso de mercado. A receita líquida cresceu 2,7% A/A e 3,2% T/T, principalmente em função do crescimento do volume de esgoto e água distribuída. O Lajida ajustado veio 7,2% acima das nossas estimativas, impulsionado pelo forte crescimento de receita. O lucro líquido foi de R$121 milhões, 12,4% acima das nossas estimativas, basicamente em função de resultados operacionais melhores que o esperado”, observou Falanga Neto, também por meio de relatório.
Ele recomenda, entretanto, a manutenção das ações da companhia, com preço-alvo de R$29,00. Apesar da surpresa positiva com as últimas divulgações da empresa mineira, o analista teme a criação da Agência Reguladora de Minas Gerais. “No geral, o resultado foi bom, com forte linha de receitas impulsionada por crescimento nos volumes. Estamos preocupados, especificamente, com a criação da Agência Reguladora de Minas Gerais porque, apesar da maior transparência, acreditamos que a Copasa poderá enfrentar dificuldades em repassar custos e garantir retornos. As margens devem sofrer redução se os custos acabarem ultrapassando os reajustes futuros”, pondera.
O analista Alexandre Furtado Montes, da Lopes Filho & Associados, mostra-se menos animado com o setor e afirma que esse não é o período mais atrativo desse segmento. “No momento, as únicas duas empresas com razoável liquidez em bolsa, Sabesp e Copasa, não são recomendação de compra”, afirma. Apesar do baixíssimo risco conjuntural e do ótimo esquema de funding que o segmento possui, Alexandre não vê com grande emoção os últimos números divulgados por ambas. “Esse é um setor que cresce vegetativamente, não chega a emocionar. Um fator de risco importante é a troca de comando estadual. As duas empresas, como se sabe, são controladas pelos respectivos estados. Guinadas na governança podem acontecer, são um fator de risco a ser considerado”, analisa.
Para quem já possui ações das companhias, Alexandre recomenda manutenção, tanto para a Sabesp quanto para a Copasa. “O risco da Sabesp é maior e o crescimento potencial menor, entretanto a cotação em bolsa versus resultados prováveis compensa tais fatos”, afirma Alexandre. Ele ressalta, por fim, que a Sabesp guarda ainda os riscos financeiro e cambial. “Ela é bastante endividada e boa parte da dívida é em moeda estrangeira”, revela.
Concorrência?
Apesar do interesse em captar recursos na bolsa de valores, as companhias estatais de saneamento não vivem um clima de competição nocivo. Trocas de experiências e tecnologias são comuns nesse segmento. Segundo a Aesbe, essa troca de know-how permitiu grandes conquistas para as empresas e à população como um todo, como: a melhoria do controle da qualidade de água, com a transferência de técnicas e de procedimentos laboratoriais; a definição das características do lodo de estação de tratamento de esgotos, para aplicação na agricultura; a melhoria das práticas contábeis, com a elaboração de um novo manual de procedimentos contábeis que incorporou as mais novas exigências legais e normativas para o setor; um melhor entendimento das questões envolvendo a implementação da Lei nº 11445/07, a regulação nos estados, a elaboração dos planos de saneamento e a renovação dos contratos de concessão; e a adoção de técnicas para maior eficiência energética a fim de reduzirem o consumo de energia elétrica e para os operadores dos serviços de saneamento básico.
O clima de cooperação é tão aparente que especialistas do setor já especulam fusões entre algumas companhias estaduais, como Sabesp e Copasa. De concreto, entretanto, ainda não há nada. Vale a pena ficar de olho, pois esse casamento daria vida a maior empresa do setor dentre as opções de capital aberto no Brasil. Tanto Sabesp quanto Copasa possuem autorização para atuar em outros estados e, até mesmo, no exterior.
Autor(a): Larissa Moutinho
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