
A saúde no Brasil vai mal, basta olhar os noticiários para perceber isso. No entanto, os indicadores gerais de saúde vêm crescendo ano após ano. Há mais pessoas assistidas, um maior número delas tem acesso a planos de saúde privados, e os gastos com saúde têm aumentado, talvez não tão rapidamente quanto as pessoas queiram, mas sempre em números crescentes. Nesse cenário, empresas que lidam com saúde e estão bem posicionadas podem se aproveitar do crescimento dos gastos que ocorrerá para lucrar e prosperar. Uma das empresas que parece estar mais preparada para isso é a Cremer Distribuidor e Fabricante de Produtos Médico-Hospitalares (CREM3).
Fundada em 1935, a Cremer é hoje líder no setor de têxteis e adesivos para saúde no Brasil, além de ser a maior distribuidora brasileira de produtos descartáveis, trabalhando tanto com sua marca quanto com produtos de terceiros. A empresa, sediada em Blumenau, SC, possui 1 call center de vendas e 11 centros de distribuição localizados pelo País para atender seus cerca de 52 mil clientes (dados de 2008) com aproximadamente 4,6 mil produtos. Mas o que faz a Cremer ser considerada uma boa opção de investimento a médio e longo prazos?
Há vários motivos para essa avaliação, que vão além da análise dos números da empresa. A Cremer atua em um setor diretamente ligado ao perfil demográfico do Brasil, e este está mudando rapidamente. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil está envelhecendo. A perspectiva de vida estimada para cada brasileiro passará de 73,4 anos em 2010 para 76,1 em 2020 e 78,2 em 2030 – e os idosos têm participação cada vez maior na população como um todo. Se hoje 43% da população brasileira têm menos de 24 anos contra 10% acima de 60 anos; em 2020, as pessoas abaixo de 24 anos serão 36% e os acima de 60 representarão 14%. E, em 2030, os jovens serão 30% da população contra 18,7% dos acima de 60 anos. Para a empresa e os analistas que a acompanham, isso implicará em um aumento da demanda por serviços de saúde. Atualmente, apenas 24,55% da população brasileira está coberta por algum plano de saúde.
Além disso, na comparação com outros países de perfil demográfico semelhante, o Brasil gasta pouco nessa área. Dados da Organização Mundial da Saúde mostraram que o Brasil gastou, em 2006, 7,5% de seu PIB nesse setor contra 10,1% da Argentina e 15,3% dos Estados Unidos. De acordo com Marcelo Alves Varejão, analista da Socopa Corretora Paulista, mesmo que o porcentual norte-americano não seja replicado no Brasil, há espaço para que se aumente o valor gasto com saúde no País, o que poderia proporcionar o crescimento de empresas que operam nesse setor.
Além desses fatores, a Cremer é também uma das poucas empresas estruturadas e organizadas com porte econômico relevante para operar em um setor altamente fragmentado, seja na ponta do vendedor como na do comprador. Na ponta do vendedor, a Cremer estima que exista cerca de 1,5 mil distribuidores de produtos descartáveis para a saúde no País, sendo a maioria de empresas familiares pouco capitalizadas, sem uma administração profissional e com abrangência geográfica limitada. Nos Estados Unidos, por exemplo, 93% do mercado de distribuição de produtos descartáveis para saúde e farmacêuticos são controlados por apenas três empresas.
Na ponta do comprador, há outro mercado altamente fragmentado. De acordo com dados do Ministério da Saúde, existe mais de 6,4 mil hospitais no Brasil. Enquanto o setor público, responsável por cerca da metade desses hospitais, trabalha com licitações, no setor privado não há grupos significativos de compra como no mercado americano. A maior rede brasileira de compras une 88 hospitais e a maior rede hospitalar privada, a Samcil, tem somente nove hospitais. Juntas, elas representam menos de 2% dos hospitais do País. Nos Estados Unidos, grupos de compra respondem por 66% dos materiais e equipamentos adquiridos por instituições de assistência à saúde.
Em relação às farmácias, também há uma grande fragmentação. O Conselho Regional de Farmácias de São Paulo estima haver 55 mil farmácias no Brasil. Dessas, apenas 10% fazem parte de redes e 75% são consideradas micro ou pequenas empresas. A maior rede em número de farmácias atualmente é a Farmais, com 600 lojas ou 1,1% do total. Já em receita líquida a Drogaria São Paulo é considerada a maior rede, com 1,6% do total do setor. Nos Estados Unidos, a maior rede de drogarias, a Walgreen Co, tem 4.582 lojas e 40% das vendas. Sem contar com os mercados que também vendem alguns produtos ligados à saúde, como esparadrapos, curativos, etc. E em relação aos dentistas, cerca de 210 mil hoje no Brasil, a esmagadora maioria é composta de profissionais autônomos, sem grupos de compras estabelecidos. Todos esses fatores somados favorecem a Cremer, que possui uma estrutura de distribuição consolidada e abrange todo o território nacional, além de uma equipe de vendas própria via call center para atender todos os públicos-alvo da empresa.
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Indicadores |
Brasil |
Argentina |
Chile |
EUA |
|
Renda per capita (em US$ ajustados por paridade de compra) |
8.700 |
11.670 |
11.300 |
44.070 |
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População (em milhões) |
189,3 |
39,1 |
16,4 |
302,8 |
|
Gastos governamentais em saúde em relação aos gastos governamentais totais |
7,20% |
14,20% |
14,10% |
19,10% |
|
Gastos governamentais em saúde per capita (em US$ por paridade de compra) |
367 |
758 |
367 |
3.074 |
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Gastos totais com saúde (governo mais setor privado, em US$ por paridade de compra) |
765 |
1665 |
697 |
6.714 |
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Total de gastos com saúde em relação ao PIB |
7,50% |
10,10% |
5,30% |
15,30% |
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Dentistas por 10 mil habitantes |
11 |
8 |
4 |
16 |
Fonte: Organização Mundial da Saúde, 2006
Além dos fatores externos, a Cremer possui dados fundamentalistas que credenciam sua escolha como opção de investimento a longo prazo. A empresa tem uma forte e constante geração de caixa, tendo fechado o terceiro trimestre de 2009 com um caixa líquido de R$42,3 milhões, praticamente não tem dívidas significativas e seu Capex (nível de investimento necessário) é reduzido. Segundo Varejão, não há necessidade de investimento adicional para aumento da atual capacidade da empresa. No entanto, a Cremer anunciou com o relatório dos resultados do terceiro trimestre a emissão de debêntures no valor de R$100 milhões. De acordo com Alexandre Borges, diretor-presidente da Cremer, ainda não há um destino para esse dinheiro: “Ele está em linha com nossa estratégia de rebancarização da empresa. Esse capital poderá ser usado para uma nova distribuição ou aquisições, não está certo ainda”.
No fim do primeiro semestre de 2009, a Cremer colocou como objetivo ter uma relação dívida líquida/Ebitda de 1,5x, ou seja, ter dívidas em relação ao lucro, em vez de ter a situação de caixa líquido que ela possui hoje. Esse dinheiro poderia servir, de acordo com Varejão, para fazer aquisições de outros fornecedores ou competidores: “No entanto, talvez não valha a pena, pois, como o setor é muito fragmentado, não há ninguém de porte que possa ser comprado para acrescentar resultados à Cremer”. Por isso, ele acredita que políticas como o pagamento de 100% de payout (distribuição de todo o lucro e restituição de capital aos acionistas) deva ser mantida.
No 3T09, o dividend yield da Cremer era um dos mais altos do mercado, de 37,2%. Para explicar: dividend yield é a relação entre o dividendo pago por ação e o preço de cada ação da empresa. No caso da Cremer, como houve a decisão de distribuir todos os lucros, pois ela não vê necessidade nesse momento de reinvesti-los em melhorias na capacidade fabril ou pagar dívidas, porque quase não as tem e o preço das ações no mercado é relativamente baixo, a relação do dividend yield é excepcionalmente alta.
Outro ponto que conta a favor da Cremer é o fato de ela atuar em um setor defensivo, ou seja, mesmo em recessão, ela mantém um determinado volume de compras. Nos primeiros nove meses de 2009, a empresa alcançou R$282,4 milhões em receita líquida contra os R$245 milhões registrados no mesmo período de 2008, um crescimento de 11%. Isso enquanto o PIB brasileiro mostrava retração no mesmo período. O lucro líquido da empresa deu um salto, passando de R$24 milhões para R$32,9 milhões, um crescimento de 36,6%.
No entanto, Varejão estima que o crescimento das receitas não deve ser tão expressivo no futuro devido à política de a Cremer privilegiar a rentabilidade de cada linha de produto em detrimento do aumento do volume e do número de produtos ofertados. E, como a empresa possui uma base de clientes ampla e diversificada, isso reduz a dependência de um determinado cliente ou segmento específico e cria oportunidades de venda cruzada. O maior cliente da Cremer, de acordo com a empresa, representa menos de 2% das vendas totais.
A existência de uma estrutura de distribuição nacional já consolidada permite à Cremer buscar parceiros para a distribuição de produtos sem, com isso, incorrer em custos elevados. Em outubro de 2009, por exemplo, a Cremer e a Lemgruber, fabricante de luvas de procedimentos cirúrgicos, assinaram um contrato de exclusividade para que a primeira seja a única distribuidora das luvas no Brasil – a Cremer já respondia por 65% do faturamento com luvas da Lemgruber. “Parcerias como essa poderão ser feitas no futuro e aumentar as receitas da Cremer sem grandes investimentos”, explica Varejão. A empresa também pretende aumentar sua participação em dois segmentos nos quais sua presença é pequena: supermercados e entre dentistas.
Na Gradual Investimentos, a tese é de que a empresa vem evoluindo de forma consistente na condução de seus negócios, realizando parcerias importantes, como o contrato de exclusividade de distribuição de luvas de procedimentos cirúrgicos com a Lemgruber. Além disso, a empresa possui uma sólida estrutura financeira, apresentando elevada liquidez. Por fim, a Gradual Investimentos recomenda a compra das ações da Cremer fortalecida também pela atual estratégia de dividendos da companhia, que vem realizando um payout de 100% para, dessa forma, adequar sua estrutura de capital.
Para Borges, a Cremer lança mão de estratégias não sofisticadas, mas que são simples e eficientes. A empresa está trabalhando com cinco iniciativas gerais que orientam o crescimento dos negócios. Na área comercial, ela vem reduzindo o portfolio de produtos para focar aqueles mais rentáveis, aumentar a eficiência dos canais de venda, assinar parcerias com fornecedores estratégicos para ser seu único representante comercial e fortalecer a marca de seus próprios produtos. Na cadeia de suprimentos, a Cremer iniciou a revisão de sua malha logística e da gestão do estoque. Essa iniciativa já gerou melhorias no tempo de entrega e na redução dos custos de frete. Na fábrica, a empresa continua introduzindo melhorias para aumentar a produtividade e reduzir perdas.
Na área de recursos humanos, a empresa aprovou, em julho de 2009, o programa de participação dos resultados. Em outubro, concluiu as negociações salariais de 2008 e continua trabalhando para melhorar o clima organizacional, algo fundamental para uma companhia que já esteve “quebrada” em um passado recente. Por fim, no setor financeiro, a empresa trabalha para manter os fundamentos sólidos que vem apresentando até o momento.
A Socopa lista como pontos fortes, na sua avaliação da Cremer, o fato de ela ser uma forte geradora de caixa, ter um grande potencial de crescimento em sua área de atuação devido à enorme fragmentação do setor, a opção de focar em rentabilidade em vez de aumento de receitas, o fato de a empresa ter reduzido sua dependência dos distribuidores ao aumentar a participação do call center nas vendas totais e por ela ter múltiplos melhores que o de outras empresas que também atuam no setor de saúde, ainda que não se possa comparar com OdontoPrev, Drogasil, Medial, entre outras, pois não possuem a mesma atuação.
Histórico
A Cremer foi fundada em 1935, quando um grupo de empresários e médicos de Blumenau se uniu a Werner Siegfried Cremer, imigrante alemão que fabricava produtos hospitalares em Porto Alegre, RS, para montar uma empresa que atuasse no mesmo ramo. No início, ela fabricava produtos têxteis, como ataduras, gazes, fraldas de pano e ataduras de gesso. Em 1970, a Cremer iniciou a produção de esparadrapos e, em 1974, a de capas e carretéis plásticos para seus produtos adesivos hospitalares por meio de uma subsidiária, a Plásticos Cremer. Posteriormente, essa subsidiária começou a produzir e a vender componentes plásticos para a indústria têxtil e eletroeletrônica. Em 1980, a Cremer lançou a linha de adesivos industriais, passando a produzir e a comercializar fitas adesivas para os segmentos calçadista e automobilístico. Em 1994, a companhia inaugurou a atual planta industrial dedicada à fabricação de adesivos.
A década de 90 foi marcada por algumas dificuldades financeiras decorrentes de uma inadequada estrutura de capital. Em 1997, a companhia se submeteu a um processo de reestruturação administrativa e operacional para resolver seu problema financeiro. Uma das consequências dessa reestruturação foi a venda do negócio de fraldas descartáveis e produtos para bebês para a Mabesa, que vende os produtos usando a marca Nova Cremer. Outra medida para melhorar a competitividade e a rentabilidade operacional foi a instalação de um call center para se relacionar diretamente com seus clientes, com o objetivo de reduzir a dependência de distribuidores. Em 2002, a empresa passou a operar centros de distribuição posicionados em regiões estratégicas do Brasil, integrando todas as pontas do negócio.
A empresa já passou duas vezes pela bolsa de valores. Em 2004, a CremerPar, controladora direta na ocasião, fez uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para fechamento de capital. O fundo de investimentos MLGPE, fundo de private equity da Merryll Lynch, adquiriu 81% de participação e colocou novo capital na companhia. Com o dinheiro, os acionistas minoritários da OPA foram pagos e o balanço saneado. O MLGPE profissionalizou a direção da empresa, promoveu uma reestruturação mais profunda e trouxe de volta a rentabilidade operacional que havia sido deixada de lado durante o processo de forte expansão das atividades. Uma dessas ações foi a redução da linha de produtos vendidos pela empresa – a Cremer que, por meio de sua distribuidora, vendia produtos próprios e de terceiros, tinha um portfolio muito extenso, incluindo produtos com margem negativa.
A nova abertura de capital foi feita em 2007, quando o MLGPE colocou 94% de suas ações no mercado, passando, a partir daí, a ter seu controle exercido de forma difusa. Atualmente, a empresa acredita ser a líder no setor de têxteis e adesivos para saúde no Brasil (não há uma entidade que consolide os dados do setor no País) e o maior distribuidor de produtos descartáveis nesse setor por meio da venda de materiais próprios e de terceiros. A empresa possui 3 fábricas em Blumenau – uma de produtos têxteis, outra de adesivos e uma de plásticos – e 12 centros de distribuição, sendo 11 voltados a produtos para saúde.
Acionista |
Ações Ordinárias |
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Hedging-Griffo Corretora de Valores S.A. |
7,02 % |
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Poland Fundo de Investimento em Ações |
11,28 % |
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Tarpon Investimentos S.A. |
24,27 % |
|
Guepardo Investimentos Ltda. |
5,94 % |
|
Morgan Stanley Uruguay Ltda. |
8,10 % |
|
Ações em tesouraria |
5,93 % |
|
Outros |
37,46 % |
Fonte: Cremer
Obs.: a empresa não possui ações preferenciais.
Autor(a): Adriano Koehler
Destinatario:
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Nome:Comentário
Nome:Site do mês |
( 1467 ) |
Confronto |
( 1302 ) |
Seus investimentos |
( 1188 ) |
Seus investimentos |
( 13 ) |
Site do mês |
( 8 ) |
Seus investimentos |
( 4 ) |
Seus investimentos |
( 36 ) |
Seus investimentos |
( 10 ) |
Eu na bolsa |
( 8 ) |