
Você já parou para pensar em como é fácil obter informações a respeito das empresas em que deseja investir? Hoje, não faltam sites de investimento, blogs, fóruns de discussão, análises, relatórios, etc. Indo além, você já se perguntou por que, mesmo com tanta informação, nem sempre alcança os objetivos que traçou? Ken Fisher já. Ele é colunista da revista Forbes e um dos mais renomados gestores de recursos dos Estados Unidos. Em 2006, lançou o livro Para o bom investidor, trê$ perguntas bastam: como multiplicar seu dinheiro sabendo o que os outros não sabem. Essas três perguntas propostas por Fisher são uma reflexão sobre a forma como o investidor vê seus investimentos e lida com suas decisões no dia a dia.
O autor discorda de muitos especialistas que acreditam que aperfeiçoar habilidades é o principal fator gerador de sucesso. Para ele, inteligência e treinamento são importantes, mas não suficientes ou necessários. “Se investir fosse uma habilidade, não existiria essa profusão de livros de investimento ensinando técnicas tão variadas nem gurus opinadores e seminários divulgando procedimentos contraditórios, haveria repetição e consistência”, afirma. O diferencial, segundo Fisher, está em saber algo que os outros não sabem.
Para isso, o investidor tem de agir como um cientista. As teorias e fórmulas a respeito do mercado de capitais estão continuamente evoluindo e sendo ajustadas. Hoje, não há limites para o conhecimento. Qualquer pessoa pode aprender coisas que ninguém sabe e tirar proveito disso. Fisher afirma que, para saber sobre algo que os outros não sabem, você só precisa pensar como um cientista: de maneira ousada, ser curioso e aberto a novas perspectivas e possibilidades.
“Como um cientista, você deve abordar o investimento não com um conjunto de regras, mas com uma mente aberta e curiosa. Para tanto, é necessário aprender a fazer perguntas. Elas vão auxiliar você a desenvolver hipóteses sobre as quais pode realizar testes de eficácia. Mas simplesmente questionar não vai ajudá-lo a lucrar nos mercados. É fundamental que as perguntas sejam precisas e apontem para um fato a respeito do qual uma aposta possa ser feita corretamente”, recomenda.
Primeira pergunta – Em que eu acredito, mas que na verdade é falso?
Esse é um dos grandes desafios a serem superados para que você possa alcançar bons resultados. O efeito manada faz com que muitos investidores acreditem em fatos consagrados, mas que nem por isso são verdadeiros. Não é porque você acredita que algo é verdadeiro que ele realmente seja. Sendo assim, há a necessidade de se fazer um frequente questionamento sobre a veracidade de suas convicções, até porque suas crenças são, provavelmente, as mesmas de muitos outros investidores. E isso não é bom.
Fisher acredita que, se a maioria das pessoas pensa que uma coisa é verdadeira, fica fácil prever como elas apostarão. Dessa forma, caso esteja atento e saiba responder a primeira pergunta, você pode aprender a apostar contra essas crenças, pois o mercado vai descartá-las, e também a sua falsa verdade, por exemplo: suponha que você e muitos outros investidores acreditem que o fator Y seja consequência do fator X. Quando Y acontece, você sabe que todos vão apostar nisso. Agora, imagine que tenha procurado a resposta para a primeira pergunta e descobriu que X não causa Y. Você certamente poderá seguir na contramão da “manada” e apostar com sucesso contra Y, porque sabe de algo que os outros não sabem.
No entanto, essa tarefa de diferenciar mitos de fatos reais não é fácil. Mas, mesmo assim, não é impossível. A figura do homem racional proposto pelas teorias clássicas da economia não existe. Os estudos das finanças comportamentais já comprovaram que os investidores são reféns de seus próprios deslizes emocionais. Fisher reforça essa tese ao afirmar que a maioria dos indivíduos não gosta de se questionar e prefere passar o tempo convencendo a si mesmos e aos outros de que suas crenças são verdadeiras. “Como sociedade, somos encorajados a desafiar as visões de outras pessoas, como quando questionamos os políticos, mas não somos treinados a contestar a nós mesmos ou a questionar os pilares do universo da mesma forma como fizeram Einstein, Edison ou Newton”, lamenta.
Portanto, você não pode confiar em qualquer conclusão que pensou ser a mais correta. Como remédio para isso, o autor recomenda que seja cético a respeito de todas as suas crenças, pois, muitas vezes, a solução dos problemas vem através de conflitos e questionamentos.
O instinto do ser humano, salvo raras exceções, é aceitar o conhecimento deixado por gerações anteriores. No entanto, essa crença precisa ser rompida. O homem deve ser movido pela curiosidade, pela busca incessante do conhecimento e pelo desejo de romper paradigmas e expandir horizontes. Foi isso o que grandes cientistas, músicos e filósofos fizeram para realizar feitos que permanecem vivos e eternizados até os dias de hoje. Que legado Einstein teria nos deixado se não tivesse comprovado a teoria geral da relatividade? Por que lembraríamos de Isaac Newton se tivesse ignorado a maçã que caiu da árvore? E o que seria do universo tecnológico se não fosse a intervenção de Thomas Edison?
A curiosidade e a vontade de realizar um feito jamais visto foi o que moveu as grandes figuras da história. E você, investidor, o que busca? Ganhar o máximo de dinheiro possível com o mínimo de risco, certo? Então, comece agora mesmo a questionar suas crenças e buscar novas verdades.
Para entender a primeira pergunta
Segunda pergunta – O que eu posso imaginar e que os outros acham inimaginável?
Esse questionamento pode sugerir algo distante e até utópico em um primeiro momento, e isso é perfeitamente normal. Portanto, não desanime. A segunda pergunta não vai aparecer com tanta frequência como a primeira, pois ela não tem a ver com um momento eureka, como quando o matemático grego Arquimedes estabeleceu as leis fundamentais da estática e hidrostática, e sim com o que acontece depois disso. a chave da questão não é perceber que um objeto imerso em um recipiente com água seja capaz de elevar o volume do líquido, mas se perguntar por que isso ocorreu e começar a imaginar que forças poderiam estar em jogo.
Para responder perguntas como essa, é necessário um processo de investigação que possibilite contemplar algo que a maioria das pessoas imagina que não pode ser contemplado. “Foi isso que tornou Albert Einstein e Thomas Edison tão bem-sucedidos e malucos – eles conseguiam pensar em como imaginar o inimaginável”, relembra.
Imaginar o inimaginável é quase surreal e foge completamente de qualquer padrão com os quais estamos habituados. Entretanto, você não deve ver isso como algo ruim. Pelo contrário, Fisher aconselha que a segunda pergunta seja feita em momentos de isolamento para que você possa pensar e refletir longe do barulho incessante do mercado, quando pode imaginar se o fator Q não poderia ser a causa do resultado Y, enquanto todo mundo está se queixando de que X causou Y. “Imagine que as pessoas não façam ideia do que causa Y. Se todas souberem que ninguém sabe, provavelmente poucas estarão dispostas a pensar no que ocasiona Y por considerarem uma perda de tempo”, estima.
Um bom exemplo disso é lembrar de nossos ancestrais pré-históricos no período em que passaram a viver em grupos. Imagine que eles estavam reunidos para o jantar e, de repente, escutaram um barulho vindo do norte. Instintivamente, todos olhariam para essa direção tentando encontrar o que teria causado tal ruído. No entanto, uma possível tribo inimiga poderia ter simulado esse barulho com a intenção de despistá-los para atacá-los pelo sul. Isso acontecia na pré-história e acontece até hoje. Se você já acampou alguma vez, já deve ter passado por uma situação semelhante. O instinto animal de sobrevivência fala mais alto. Então, procure prestar mais atenção a si mesmo para constatar isso.
Quando falamos em investimentos, podemos aplicar essa mesma lógica. A imprensa e as corretoras bombardeiam os investidores de informação, fazendo com que a “manada” corra toda para o mesmo lado. “Para saber o que seus colegas não sabem, você tem de olhar para qualquer lugar, menos para onde eles estão olhando”, recomenda.
Para entender a segunda pergunta
Terceira pergunta – O que meu cérebro está fazendo para me cegar?
A lógica que acompanha o bom investidor é muito simples e está longe de ser um grande segredo: comprar na baixa e vender na alta! Mas por que é tão difícil fazer isso? Fisher atribui essa contradição paradoxal ao cérebro humano. Como já falamos, somos movidos por crenças – muitas, infundadas – e atos irracionais. Isso está na essência de nossas raízes. Lembra da história de nossos ancestrais pré-históricos? Pois bem, por mais desenvolvidos que sejamos, nosso cérebro ainda sofre com o primitivismo herdado de nossos antepassados. Fisher explica que “nossas mentes estão condicionadas por preconceitos que nos levam a tomar decisões estúpidas, que parecem realmente ser inteligentes no momento”. Pode ser que agora você tenha se lembrado de alguma decisão que tomou achando que estava certo e, depois, percebeu que era um grande erro.
A primeira e a segunda perguntas têm a intenção de fornecer um contexto para que você possa encontrar boas opções de investimento, mas elas não servirão de nada se deixar seu cérebro o atrapalhar. Ao refletir sobre a terceira pergunta, dificilmente ficará sem resposta.
Um estudo publicado no Quarterly journal of economics, que é editado pelo Departamento de Economia de Harvard, apontou que a maioria dos norte-americanos odeia as perdas 2,5 vezes mais que aprecia os ganhos. Um ganho de 25% pode ser tão bom quanto uma perda de 10% parece ruim. Em outras palavras, a sensação de perder 10% é muito pior que a de ganhar 10%, não concorda?
Fisher acredita que em situações de perda é normal o investidor ficar procurando culpados por seu insucesso e dizer coisas, como: “Foi culpa do analista que me recomendou essa ação sem-vergonha!”, “A diretoria dessa empresa só faz bobagem. Não tem como a ação não cair” ou “Todos os meus amigos tinham essa ação e só falavam bem. Não deveria tê-los ouvido!” e assim por diante.
Sabe aquela frase muito utilizada quando se quer convencer alguém de que uma pessoa precisa de ajuda? “O primeiro passo para a recuperação é admitir que existe um problema.” Pois bem, ela se encaixa perfeitamente no investidor refém de seu cérebro. Se você errar, não terceirize a culpa, assuma-a! Somente assim poderá começar a se livrar dos vícios primatas de seu cérebro. Um investidor orgulhoso não chega a lugar algum.
O mesmo vale para quem não se arrepende das decisões equivocadas. Nesses casos, é comum se elevar à vítima e terceirizar a culpa, em vez de reconhecer o erro e assumir a responsabilidade. “Acumular orgulho e desprezar arrependimento foram técnicas básicas para a sobrevivência de nossos ancestrais. Isso era necessário naquela época e até hoje fazemos a mesma coisa, motivando-nos para continuarmos tentando. No entanto, esses comportamentos implicam em equívocos nos investimentos”, lamenta Fisher. Antes de tomar uma decisão, pergunte-se: “O que meu cérebro está fazendo para me cegar dessa vez?”. Quanto mais sensata e racional parecer sua decisão, maior será a necessidade de se questionar novamente.
A terceira pergunta tira a arma que seu cérebro insiste em apontar para sua própria cabeça, e é o complemento fundamental para a primeira e a segunda perguntas.
Dicas que ajudam a entender a terceira pergunta
Para saber mais
Livro: Para o bom investidor, trê$ perguntas bastam: como multiplicar seu dinheiro sabendo o que os outros não sabem
Autor: Ken Fisher
Editora: Saraiva
Autor(a): João Guilherme Brotto
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