Quando Warren Buffett comprou sua empresa, a Berkshire Hathaway, no início dos anos 60, pagou pouco menos que oito dólares por ação. No fechamento desta edição, as ações da Berkshire estavam sendo negociadas na bolsa de Nova Iorque pela bagatela de 86,5 mil dólares. Esse exemplo ilustra bem o que o investimento em valor busca, que é comprar empresas sólidas, com boas perspectivas de crescimento e que estejam abaixo de seu valor intrínseco. “Assim como o preço de algumas ações cai muito por conta da divulgação de seus lucros abaixo das expectativas do mercado, às vezes, algumas são negociadas abaixo do valor de seu patrimônio líquido. Isso pode ser uma reação exagerada a um relatório de baixos lucros ou condições do setor, mas, quando acontece, essas ações se candidatam a ficar na estante de nossa loja de investimento em valor”, revela Christopher H. Browne, autor do livro Investimento em valor: como lucrar com ações “em promoção” e fugir das falsas barganhas.
Para ele, o investimento em valor não é um conjunto de regras restritas: “É uma série de princípios que forma uma filosofia de investimento, oferece diretrizes que podem colocar o investidor no caminho de boas ações e, com a mesma importância, afastá-lo das ruins. O investimento em valor traz a campo um modelo pelo qual você pode avaliar uma oportunidade de investimento ou um gestor de investimento”.
Essa filosofia de investimento existe desde 1934, quando Benjamin Graham, professor de investimentos da Columbia Business School e mentor de Warren Buffett, escreveu o livro Security Analysis, ainda sem tradução no Brasil. O autor sintetizou sua abordagem para analisar uma ação em três pontos principais:
Mas como descobrir o valor real de uma empresa para poder comprá-la “com desconto”?
Em 1938, o economista John Burr Williams publicou o livro The theory of investment value. Nele, diz que o valor de um negócio é encontrado ao estimar todo o dinheiro que uma empresa ganhará durante sua vida e descontar do valor atual. Da mesma visão compartilha Warren Buffett, que define o valor intrínseco como “o valor descontado do dinheiro que pode ser obtido de um negócio durante o restante de sua vida”. Buffett sempre insistiu na ideia de que adquirir uma ação é comprar o negócio da empresa. Para ele, “sua meta como investidor deve ser simplesmente comprar, a um preço razoável, a participação de um negócio fácil de entender, cujos lucros são praticamente certos de serem substancialmente mais altos em 5, 10 e 20 anos”.
Fique atento a esses princípios do megainvestidor:
Uma das principais características do investidor em valor é a crença em suas próprias convicções. Ele é firme por ser um estudioso e investir embasado em fatos. Em suma, segue o que Graham recomenda: “Se você chegar a uma conclusão a partir dos fatos e souber que sua avaliação está correta, aja em virtude dela – mesmo que os outros possam hesitar ou discordar. Você não está certo ou errado porque a multidão discorda de sua opinião, e sim porque seus dados e análise estão corretos”.
No entanto, existem alguns mitos sobre o investimento em valor. No livro Monte uma carteira vencedora, Charles S. Mizrahi os derruba e explica o porquê:
Mito 1 – Grande parte da informação necessária para pesquisar uma ação é muito cara e difícil de obter e entender – Muitos investidores bem-sucedidos recomendam a leitura dos últimos quatro ou cinco anos do relatório anual da empresa como parte da pesquisa. Você poderá ver se eles mantiveram as promessas feitas em anos anteriores, admitiram os erros e apresentaram mensagem consistente. Em outras palavras, sendo um acionista, o indivíduo é o verdadeiro proprietário da companhia e o relatório anual é o modo como a ela informa o desempenho no ano anterior. A maioria dos relatórios anuais é escrita de maneira amigável, informal e fácil de entender. Hoje, em apenas algumas horas, você pode saber muito sobre uma empresa no conforto de sua poltrona favorita.
Mito 2 – Você não pode superar o mercado de ações – Se começar a encarar as ações como partes de um negócio, comprar empresas de qualidade quando estiverem sendo vendidas a preços razoáveis, ignorar as flutuações do mercado e segurar as ações de longo prazo, você terá grandes chances de vencer o mercado. Fortunas foram feitas por investidores de origem humilde que adquiriram ações de companhias de qualidade e as mantiveram por anos.
Mito 3 – Investir em valor é comprar ações que estão sendo negociadas a preços baixos – Se tentar comprar ações com base em seu nível de preço, provavelmente estará comprando muitas empresas terríveis e perdendo as melhores. O fato de estar sendo negociada a um preço baixo não quer dizer que seja um investimento em valor. Um investidor em valor nunca se preocupa com o nível de preço da ação, que sempre deve ser calculado com base no valor subjacente da empresa. Não importa o valor pelo qual ela está sendo negociada, desde que você esteja obtendo mais valor que pagou por ela.
Mito 4 – Você precisa ser um contador para entender as demonstrações financeiras da empresa – A contabilidade é a música do negócio e, ao saber cantarolar apenas algumas notas, você evitará pagar demais por empresas de qualidade, podendo conseguir retornos mais altos sobre seus investimentos. É útil saber alguma coisa sobre contabilidade para ser um investidor em valor, mas, caso não saiba, não tenha medo. Se puder calcular quanto ganhou com a compra de algo de 10 reis e que tenha vendido por 15 reais, com dois reais de despesas, você estará bem.
Mito 5 – Você pode ganhar mais dinheiro investindo em ações de companhias em crescimento que nas de empresas de valor – A diferença básica é que os investidores em valor também desejam comprar empresas em crescimento, mas não querem pagar um alto preço por elas. Eles têm uma visão mais conservadora e cautelosa do futuro. Por outro lado, os investidores em empresas em crescimento pagam pelo crescimento na expectativa de que ele continue. Warren Buffett disse: “Desde que você esteja comprando grandes empresas abaixo de seu valor real, não dê a mínima para o nome do estilo de investimento e apenas observe seu saldo de conta crescer ao longo do tempo”.
Não perca tempo investindo em organizações que produzem um produto “xpto” que você não compreende absolutamente nada, mas ouviu dizer que é uma grande aposta. Pense nos produtos e serviços que estão presentes em seu dia-a-dia. Qual é a marca de sua geladeira? E de sua operadora de telefone celular? Em qual banco você possui conta? Onde faz suas compras? As respostas para essas perguntas podem ser as empresas nas quais deve investir. “Olhe ao redor e anote todas as coisas que usa diariamente. Você encontrará muitas grandes empresas logo à frente. Fique com o que já está familiarizado e terá muito mais segurança nas escolhas”, recomenda Mizrahi.
Oportunidades em meio a crises
Nada melhor que uma crise para o investidor em valor. São nesses momentos que o mercado subvaloriza muitos ativos, transformando os períodos aparentemente catastróficos em verdadeiros oásis para quem sabe garimpar preciosidades. No livro, Mizrahi cita os atentados terroristas ao World Trade Center, em 2001, para exemplificar o que acontece com o mercado em momentos de crise: “Apesar de o ataque de 11 de setembro ter sido trágico, faz sentido que um fabricante de automóveis, semicondutores, equipamentos médicos, um banco de centro monetário e uma corretora perdessem valor, se nenhuma mudança fundamental aconteceu em seus negócios? Sempre haverá algum tipo de crise que faz as pessoas reagirem de forma irracional. É durante esses momentos que você precisa agir e estar preparado para comprar empresas de sua lista de objetivos”. Nas palavras de Buffett, “seja ganancioso quando os outros estão com medo e tenha medo quando os outros estão gananciosos”.
Colaboração: João Guilherme Brotto
Livro: Monte uma carteira vencedora
Autor: Charles S. Mizrahi
Editora: Campus/Elsevier
Livro: Investimento em valor: como lucrar com ações “em promoção” e fugir das falsas barganhas
Autor: Christopher H. Browne
Editora: Saraiva
Autor(a): Redação InvestMais
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