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24/09/2009

Aprenda com o fracasso de um investidor teimoso

O autor Jeremy Siegel apresenta tudo o que o investidor precisa saber para investir e lucrar com ações a longo prazo, abordando desde a relação entre o ambiente econômico e as ações até conceitos de análise técnica

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As finanças comportamentais vêm tendo cada vez mais uma maior evidência entre os investidores, sendo consenso entre todos que desprezar o emocional na hora de investir é uma tarefa praticamente impossível. Diante desse cenário, só existe uma receita para minimizar as perdas decorrentes das armadilhas do cérebro: investir em conhecimento.

Na InvestMais, sempre procuramos trazer as melhores técnicas, conceitos e ferramentas para que você se torne um investidor independente e livre de vícios, como os que decorrem das questões emocionais. Por isso, trazemos um trecho sensacional do best-seller Investindo em ações no longo prazo: a bíblia do mercado de ações para o investidor de longo prazo. O livro, lançado no Brasil neste ano pela editora Campus/Elsevier, está em sua quarta edição e já vendeu mais de 200 mil exemplares nos EUA.

O autor, Jeremy Siegel, apresenta tudo o que o investidor precisa saber para investir e lucrar com ações a longo prazo, abordando desde a relação entre o ambiente econômico e as ações até conceitos de análise técnica, passando por mais 19 capítulos fundamentais a qualquer investidor de longo prazo.

No capítulo em que aborda as finanças comportamentais e a psicologia do investimento, Siegel simula um brilhante diálogo entre um consultor de investimentos e Dave, um investidor desesperado por ter perdido boa parte de seus rendimentos devido à sua teimosia em acreditar nas empresas tecnológicas no período da bolha da internet. Inconformada por ver três quartos de sua aposentadoria ser reduzida a pó, a esposa de Dave o obriga a se consultar com um especialista em finanças comportamentais. As lições são imperdíveis e, após ler essa “consulta”, você certamente vai rever suas crenças alimentadas por suas emoções, acompanhe:

 

“Consultor de investimentos – Primeiro, vamos discutir sua decisão de entrar nas ações da internet. Volte a outubro de 1999. Você lembra por que decidiu comprar essas ações?

Dave – Sim. Minhas ações não estavam indo a lugar algum e meus amigos de trabalho estavam investindo na internet e fazendo bastante dinheiro. Havia muita excitação sobre essas ações, todos afirmavam que a internet era uma revolução da comunicação que modificaria os negócios para sempre.

 

CI – Quando todo mundo está excitado com o mercado, você deve tomar muito cuidado. O preço das ações não se baseia apenas em valores econômicos, mas também em fatores psicológicos que influenciam o mercado. O economista da Yale University, Robert Shiller, um dos líderes do movimento das finanças comportamentais, enfatizou que as modas e as dinâmicas sociais têm uma função muito importante na determinação do preço das ações. Ele demonstrou que o preço das ações tem se mostrado muito volátil para ser explicado apenas por flutuações nos fatores econômicos, como dividendos e lucros. Shiller desenvolveu a hipótese de que muito da volatilidade adicional poderia ser explicado por modas e manias que têm grande impacto nas decisões dos investidores.

Dave – Eu até tinha minhas dúvidas sobre essas ações da internet, mas todos pareciam tão certos de que elas eram vencedoras. Se eu não comprasse, sentia que estava perdendo alguma coisa.

 

CI – Sei. A bolha da internet e a tecnologia são um exemplo perfeito das pressões sociais que influenciam os preços das ações. As conversas nos escritórios, as manchetes dos jornais, as previsões dos analistas, enfim, todos alimentaram a compra louca dessas ações. Os psicólogos chamam essa tendência de seguir a massa de instinto de rebanho (ou efeito manada) – a tendência que os indivíduos têm para adaptar seu pensamento à opinião prevalecente. A propensão dos investidores de seguir a multidão é um aspecto permanente da história financeira. Há muitas ocasiões em que as ‘massas’ estão certas, mas, normalmente, segui-las não é um bom caminho, por exemplo: quando uma companhia faz uma oferta por outra, muitas vezes aparecem outros pretendentes; quando uma IPO tem muita procura, outros investidores aparecem querendo comprar. As pessoas têm a sensação de que ‘alguém sabe de alguma coisa’, e elas não querem perder a chance. Algumas vezes, isso até está certo, entretanto, na maior parte das vezes, está errado.”

 

Trading excessivo, soberba e curva representativa

“CI – Dave, vamos mudar de assunto. Examinando os registros de suas operações, vejo que você era um trader muito ativo.

Dave – Eu tinha de ser. As informações novas chegavam toda hora. Então, sentia que precisava reposicionar meu portfolio constantemente para refletir as novas informações.

 

CI – É extraordinariamente difícil ser um trader de sucesso. Mesmo pessoas brilhantes que devotam toda sua energia ao trading de ações raramente obtêm retornos superiores. O problema é que a maioria delas tem excesso de confiança nas próprias habilidades. Em outras palavras, o indivíduo médio – não importa se é um estudante, trader, motorista ou qualquer outra coisa – acredita que é melhor do que a média, o que, é claro, se trata de algo estaticamente impossível.

Dave – O que causa essa confiança excessiva?

 

CI – Seu sucesso inicial alimentou sua confiança. Você e seus amigos atribuíram seus ganhos nas ações às suas habilidades como investidores, mas, provavelmente, esses resultados decorriam de uma chance e nada mais. Outra fonte de confiança é decorrente da tendência de ver muitos paralelos entre eventos que parecem ser os mesmos. Isso é chamado de distorção representativa, o que, normalmente, ocorre devido ao processo de aprendizado humano. Quando vemos algo que parece familiar, formamos uma representação heurística para nos ajudar a aprender. No entanto, as semelhanças que vemos nem sempre são válidas, e nossas conclusões são distorcidas.

Dave – Os relatórios de investimentos que recebo dizem que sempre que episódios como esse ocorreram no passado, o mercado se moveu na direção certa, o que indica que ele tende a fazê-lo novamente. Mas, quando tento utilizar essa recomendação, nunca funciona.

 

CI – Há anos, economistas financeiros convencionais vêm alertando sobre encontrar padrões nos dados quando, na verdade, não existe nenhum. Esse processo é chamado de ‘garimpar dados’, e nunca foi tão fácil de fazer com a popularização dos computadores. Lance algumas variáveis para explicar o movimento de preço das ações e certamente você vai encontrar algumas combinações espetaculares – tal como, nos últimos cem anos, as ações subiram em todas as terceiras quintas-feiras do mês, quando a lua é cheia. Psicologicamente, os seres humanos não são preparados para aceitar toda a incerteza que existe na bolsa. Muitos se sentem desconfortáveis em aprender e aceitar que a maioria dos movimentos do mercado é randômica e não apresenta causa ou razão identificável. As pessoas têm essa necessidade psicológica profunda de saber por que as coisas acontecem.”

 

Teoria da prospecção, aversão a perdas e carregar trades perdedores

“CI – Deixa eu lhe fazer uma pergunta: quando você compra uma ação, como avalia seu desempenho?

Dave – Calculo quanto a ação subiu ou caiu desde que a comprei.

 

CI – Exato. Normalmente, o ponto de referência é o preço de compra que os investidores pagam pela ação. Eles ficam tão fixados nisso que excluem qualquer outra informação. Richard Thaler, da University of Chicago, que produziu alguns trabalhos embrionários sobre o comportamento do investidor, refere-se a isso como contabilidade mental. Quando você adquire uma ação, abre uma contabilidade mental tomando o preço de compra como ponto de referência. A mesma coisa acontece ao comprar um grupo de ações de uma vez, ou você pensa em cada ação individualmente ou agrega as contabilidades todas em uma só. O fato de estar obtendo lucro ou prejuízo vai influenciar sua decisão de vender ou não essas ações. Além disso, em contas com múltiplas perdas, você tende a agregar perdas individuais, pois imaginar um grande prejuízo é mais fácil de digerir do que pensar em um monte de pequenos. Por isso, evitar a realização de perdas se torna o objetivo principal de muitos investidores.

Dave – Você está certo. O pensamento de ter de realizar perdas em minhas ações de tecnologia me petrificava.

 

CI – Essa é a uma reação completamente natural. Seu orgulho é uma das principais razões pelas quais você evita vender uma ação perdedora. Todo investimento envolve um compromisso tanto emocional quanto financeiro, o que torna difícil que se avalie objetivamente. Você se sente bem por ter vendido suas ações da internet com um pequeno ganho, mas as ações de rede que você adquiriu mais tarde nunca tiveram ganho. Mesmo quando as perspectivas se mostravam péssimas, você não só se agarrou a elas como também até comprou mais, na esperança de que iriam se recuperar.

Dave – Sim, eu achava que comprar ações a preços mais baixos aumentaria minha chance de recuperar as perdas.

 

CI – Você e milhões de outros investidores. Em 1982, LeRoy Gross escreveu um manual para corretores de ações no qual chamou esse fenômeno de empatitis ou a doença de tentar recuperar os prejuízos. Ele afirmou que é possível que ela tenha causado mais destruição aos portfolios que qualquer outro erro. É difícil, para nós, admitir que fizemos um mau investimento e, é ainda mais difícil, admitir esse erro aos demais. Mas, para ser um investidor de sucesso, você não tem escolha a não ser agir dessa maneira. As decisões em seu portfolio devem ser tomadas pensando nas perspectivas futuras. O que aconteceu no passado não pode ser modificado, trata-se de um ‘custo morto’, como os economistas gostam de dizer. Assim, quando as perspectivas não parecerem boas, venda a ação, não importando se está no lucro ou prejuízo.

Dave – Achei que as ações estavam baratas quando comprei mais lotes. Muitas estavam 50% abaixo do topo.

 

CI – Baratas em relação a quê? Em relação a seu preço passado ou suas perspectivas futuras? Você pensava que uma ação estava barata porque já havia custado 80 e estava custando 40, porém nunca considerou que 40 ainda poderia ser caro. Calcular o preço ‘correto’ de uma ação é uma tarefa tão complexa que é natural utilizar os valores recentes como uma âncora e depois considerar o preço atual uma pechincha.”

 

Regras para evitar armadilhas comportamentais

“Dave – Como posso evitar essas armadilhas comportamentais e ser um investidor de longo prazo de sucesso?

CI – Fico feliz que você não esteja fazendo trades, já que o trade de curto prazo é correto apenas para uma pequena fração de meus clientes. Para ser um investidor de longo prazo de sucesso, você tem de determinar regras e incentivos a fim de monitorar suas aplicações – isso é chamado de pré-compromisso. Assim, determine uma regra de distribuição de investimentos em ações e, depois, siga o planejamento. Se você tiver conhecimento suficiente, pode fazer isso sozinho, caso contrário, procure um consultor de investimentos. Não fique mudando o plano. Lembre-se de que os fatores básicos que geram retornos mudam muito menos do que pensamos quando estamos vendo as variações diárias de preços do mercado. Uma estratégia de investimentos disciplinada é quase sempre vencedora. Caso queira, pode continuar a fazer trades. Se você comprar ações para um trade de curto prazo, coloque uma ordem de stop loss para minimizar suas perdas. Não deixe que elas cresçam, com a esperança de que a ação voltará a subir um dia. Também não fale com seus amigos sobre seus trades. Viver se preocupando com suas expectativas fará com que você tenha mais dificuldade ainda em assumir um prejuízo e admitir que estava errando.

 

Dave – Tenho de admitir que, algumas vezes, eu gostava de fazer trades.

CI – Se você realmente gosta de fazer trades, crie uma pequena conta para eles totalmente separada de seu portfolio. Todas as corretagens e impostos devem ser pagos por essa conta. Considere também que o dinheiro que colocar nela pode estar totalmente perdido, visto que ele realmente pode estar. E nunca considere ultrapassar o limite rígido que você estabelecer de dinheiro, o qual pode ser colocado nessa conta.

 

Dave – Há muito o que absorver da sessão de hoje. Parece que eu caí em todas as armadilhas comportamentais. As boas notícias é que não estou sozinho e que seus conselhos ajudaram outros investidores.

CI – Eles não apenas foram ajudados como também prosperaram. Para muitas pessoas, o sucesso nos investimentos requer um conhecimento muito mais profundo de si mesmas acercado que o sucesso em seu trabalho ou, até mesmo, em suas relações pessoais necessita. Há muita verdade no velho adágio de Wall Street: ‘A bolsa de valores é um lugar muito caro para você descobrir quem você é’.”

 Para saber mais

Livro: Investindo em ações no longo prazo: a bíblia do mercado de ações para o investidor de longo prazo

Autor: Jeremy Siegel

Editora: Campus/Elsevier

 

 


Autor(a): João Guilherme Brotto


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