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05/10/2009

O sonho da razão produz monstros

Durante muito tempo, a economia foi vista como uma ciência racional. No entanto, fatos como a bolha da internet abriram a discussão: será que o chamado “homo economicus”, que surgiu no século 19 como sendo uma evolução do homo sapiens e que, de acordo com as teorias neoclássicas da economia, é a real representação da racionalidade, existe?

fotomateria

O título leva o nome de uma obra do pintor espanhol Francisco Goya. Embora, para ele, o significado da frase não estivesse ligado A finanças, ela se encaixa muito bem no mundo em que vivemos hoje. A racionalidade desfaz os laços com investidores à medida que as finanças comportamentais e as decisões emocionais ganham espaço e atenção dos estudiosos. Durante muito tempo, a economia foi vista como uma ciência racional.  No entanto, fatos como a bolha da internet abriram a discussão: será que o chamado “homo economicus”, que surgiu no século 19 como sendo uma evolução do homo sapiens e que, de acordo com as teorias neoclássicas da economia, é a real representação da racionalidade, existe?

 

Ao longo do século 20, inúmeros teóricos discutiram a veracidade dessa suposta continuação da teoria da evolução de Charles Darwin. Para os autores de uma compilação de trabalhos sobre a teoria e aplicações da Psicologia Econômica, publicado em 1986, Alan J. MacFadyen e Heather W. MacFadyen, existe uma ambigüidade por trás da definição do homem econômico. Eles defendem a idéia de que “de um lado, temos o homem econômico racional, que se defronta com um conjunto de preferências estável, consistente e bem ordenado, o qual lhe permite, com a disponibilidade de informações completas, prever todos os possíveis estados do mundo e, assim, selecionar o curso da ação que lhe dê o mais alto sentimento de felicidade. De outro, temos os humanos reais, que, ao contrário, têm preferências mutáveis, inconsistentes e, muitas vezes, inconscientes e irracionais”. Essa visão nos permite afirmar que o tal homem econômico está longe de ser uma realidade.

 

E sobre isso, a psicanalista doutora em Psicologia Econômica, Vera Rita de Mello Ferreira, não deixa dúvidas: “O homem econômico nunca existiu. Ele é um modelo muito simplificado que está bastante distante da realidade. Tanto a Psicologia Econômica quanto a Economia Comportamental já alertavam, lá atrás, que as teorias econômicas tradicionais como essa do modelo do homem econômico não funcionam, pois as pessoas fazem escolhas inteiramente inconsistentes. Tomando como exemplo a questão da perda e ganho, para um economista, 50 reais são 50 reais, mas quando um investidor perde essa quantia sente que o valor é muito maior que quando ganha”. E se você ainda acredita que a maneira como investe está imune ao efeito de suas emoções, continue a ler e aprenda mais sobre as finanças comportamentais.

 

O que são as finanças comportamentais?

 

A crise está deixando o mercado ensandecido e dificultando o trabalho dos analistas. Virou rotina ouvirmos deles que as previsões, hoje, precisam ser feitas por psicólogos e psicanalistas, e não por economistas. E é aí que as finanças comportamentais se encaixam. Elas estudam de que forma a psicologia afeta as decisões de investimento, empresas e mercado. “As Finanças Comportamentais não negam que a maioria das decisões econômicas sejam tomadas de forma racional e deliberada. No entanto, consideram que, se não forem levadas em conta também as decisões emocionais e automáticas, os modelos econômicos serão falhos para explicar o funcionamento dos mercados”, explica o doutor em Finanças e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jurandir Sell Macedo Jr.

 

O momento que estamos vivendo é perfeito para entender o porquê disso. Durante muito tempo, os investidores brasileiros se acostumaram com ganhos expressivos da renda variável. Mesmo sabendo que a Bolsa oferece riscos, os últimos anos foram tão rentáveis que tudo o que se pensava sobre perder dinheiro ficou esquecido em algum lugar do cérebro do investidor. Agora, no ápice da crise, com os ativos subvalorizados e o futuro incerto, as pessoas voltam a lembrar que o risco existe, entram em desespero e esquecem dos longos períodos de vacas gordas. 

 

“Isso ocorre porque nosso lado emocional é muito mais antigo que o racional. Há milhões de anos, nossos circuitos emocionais nos prepararam para ter reações rápidas e impulsivas, fundamentais para uma sobrevivência imediata. Por exemplo: o homem primitivo via o mamute vindo em sua direção e saía correndo, não ficava parado, pensando sobre o que ia fazer. E assim ele sobreviveu. Quando conseguiu se desenvolver mais, superou o medo do mamute e passou a caçá-lo em grupo, obtendo a carne. Aí começou a raciocinar. Só que o lado racional do ser humano ainda é muito frágil. Então, a qualquer tempestade emocional, ele volta ao passado e age da maneira mais primitiva e rudimentar, que é quando funciona quase exclusivamente de acordo com as emoções”, explica doutora Rita Ferreira.

 

Em outras palavras, muitos investidores tomam suas decisões baseados em regras heurísticas. Um exemplo disso é quando um investidor compra uma ação por ter sido recomendada por um amigo, sem se preocupar em estudar sobre a empresa, mas mesmo assim acaba tendo um bom retorno. Pode ser que dali em diante ele tome como regra investir baseado em recomendações de amigos. No entanto, essa é uma atitude completamente irracional e o problema desse ou de qualquer outro exemplo de heurística é que o investidor se torna muito suscetível às perdas. Os atalhos mentais, como também são conhecidas as heurísticas, podem induzir o investidor a tomar decisões equivocadas.

 

Mas não se desespere, pois a heurística tem cura, e quem dá a receita capaz de aliviar suas dores e perdas é a doutora Rita Ferreira:

 

  • Reconheça que o lado emocional existe e que você jamais investirá sem ele.
  • Planeje antes de investir.
  • Converse com especialistas.
  • Estude o mercado.
  • Enxergue-se no longo prazo.
  • Registre suas decisões e expectativas de investimento para, no futuro, voltar a elas e ver onde errou e acertou.

 

No livro Previsivelmente Irracional, Dan Ariely utiliza experimentos para comprovar o quanto somos suscetíveis à nossa irracionalidade e o quanto isso afeta nossa vida e decisões. Através de exemplos do cotidiano, o autor quebra os paradigmas racionais da economia tradicional e mostra que seguir os conceitos da economia comportamental é a receita para entendermos mais sobre nós mesmos e, conseqüentemente, tornarmo-nos investidores mais conscientes e, por que não, mais racionais.

 

Fazendo uso do ditado popular, é errando que se aprende. E é com um trecho do livro que encerramos, ou melhor, damos um tempo na conversa sobre investimentos e irracionalidade. Afinal, com tudo o que vem ocorrendo e deve acontecer no mercado, será difícil deixarmos de falar sobre o comportamento irracional do investidor. aditado popular, acionais.estidores mais conscientes e, por que nra comprovar o quantsas decis“Se todos cometermos erros sistematicamente nas decisões, então, por que não elaborar novas estratégias, ferramentas e métodos para nos ajudar a decidir melhor e melhorar nosso bem-estar geral? [...] Embora a irracionalidade seja lugar-comum, não significa obrigatoriamente que somos indefesos. Assim que entendermos quando e onde é possível tomar decisões errôneas, podemos tentar ser mais vigilantes e nos obrigar a pensar de outra maneira acerca dessas decisões”.

 

Dicas para lucrar com as finanças comportamentais

 

No livro A Lógica do Mercado – Como lucrar com finanças comportamentais, o doutor e professor de Finanças da Washington State University, John R. Nofsinger, aborda vários conceitos relacionados às finanças comportamentais. Confira algumas dicas extraídas do livro:

  1.       Saiba por que está investindo – Muitos investidores não traçam objetivos antes de entrar na Bolsa, e esse é um dos motivos que, mais tarde, fazem com que a pessoa se sinta pressionada e emocionalmente abalada em função de um mau momento do mercado. John diz que é importante estabelecer metas específicas e maneiras de alcançá-las. Tendo em mente o porquê de investir, a pessoa tem uma visão mais abrangente a longo prazo, sendo capaz de controlar e medir seu progresso para determinar se seu comportamento é condizente ou não com suas metas.

  2.       Tenha critérios quantitativos de investimento – Para o autor, ter uma série de critérios quantitativos de investimento e relacioná-los por escrito permite que se evite investir levado por emoções, rumores, histórias e outros vieses psicológicos. Ele recomenda que, antes de comprar uma ação, deve-se comparar os critérios da empresa que está investindo com os seus próprios. Caso não haja sinergia, não invista.

  3.       Diversifique – Essa é uma das regras básicas do investidor que deseja diminuir o risco. John recomenda o investimento em várias empresas e que elas atuem em setores diferentes. Além disso, reforça as vantagens dos fundos de renda fixa e títulos públicos. A diversificação é uma ótima estratégia para você que deseja ficar mais tranqüilo e indiferente à irracionalidade do mercado e à sua própria.

  4.       Controle o ambiente de seus investimentos – Se você não quer comer, não existem motivos para abrir a geladeira. A mesma regra vale para quem deseja manter uma visão de longo prazo. A respeito disso, John dá algumas dicas, confira.

 

  • Verifique suas ações uma vez por mês: se verificá-las uma vez por mês, e não de hora em hora, estará inibindo reações comportamentais do tipo “picada de cobra”, “busca pela satisfação” ou apostar com o “dinheiro da banca”.

 

  • Faça suas transações somente uma vez por mês, sempre no mesmo dia: com isso, evitará a idéia errada de que rapidez é importante, já que ela só o é para quem ouviu um boato sobre determinada ação e está correndo atrás para comprá-la antes que a bolha estoure. Além disso, fazer transações apenas uma vez por mês ajuda a superar o excesso de confiança que atrapalha as negociações.

 

  • Analise seu portfolio anualmente para ver se está consoante com seus objetivos específicos: será que cada um dos ativos de sua carteira contribui para o alcance dos objetivos de investimento e manutenção da diversificação?

 

Para saber mais

Livro: A Lógica do Mercado

Autor: John R. Nofsinger

Editora: Fundamento

 

Livro: Previsivelmente Irracional

Autor: Dan Ariely

Editora: Campus/Elsevier

 

Livro: Decisões Econômicas – Você já parou para pensar?

Autora: Vera Rita de Mello Ferreira

Editora: Saraiva

 

Livro: Psicologia Econômica – Estudo do comportamento econômico e da tomada de decisão

Autora: Vera Rita de Mello Ferreira

Editora: Campus/Elsevier

 


Autor(a): João Guilherme Brotto


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