
Ano de crise financeira, pessoas com medo de perder seus empregos, inverno mais rigoroso, gripe A. O ano de 2009 deixou assustado quem esperava lucrar com as empresas que comercializam planos de saúde. Os investidores viram os índices de sinistralidade atingirem as alturas – e o crescimento das empresas, por outro lado, desacelerar. Diante desse cenário, visto por muitos como catastrófico, fica a pergunta: essa é a hora de abandonar o barco?
“Não”, respondem os especialistas. Para Iago Whately e Daniel Henrique Gewehr, analistas da Fator Corretora e do banco Santander, respectivamente, o setor ainda sofrerá um pouco, visto que a divulgação dos relatórios do terceiro trimestre deste ano evidenciará o ápice do inverno e da gripe A. “Sazonalmente, os resultados são piores no segundo e terceiro trimestres em virtude do período de inverno no Brasil”, explica Gewehr. Passado esse instante, entretanto, a tendência é de uma nova aceleração no crescimento e de queda na sinistralidade. Bom para quem tiver sangue frio e souber esperar.
O mercado de trabalho, que tem sido o principal fator para incentivar o crescimento das vendas de planos de saúde no Brasil, começa a dar sinais de retomada. “Recentemente, saíram dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que dão sinais de que o pior momento já passou. Sem dúvida, a recuperação vai ser lenta, a criação de vagas ficará aquém dos anos anteriores, mas, na comparação com os dias mais críticos da crise, o quadro é melhor e as perspectivas são positivas para os próximos meses”, enfatiza Whately. De acordo com o Caged, foram realizados, no primeiro semestre deste ano, 9,3 milhões de contratações no Brasil, contra 8,8 milhões de demissões. A variação foi de 1,37%.
O setor de serviços médico-hospitalares, análises e diagnósticos abrange cinco empresas na bolsa de valores: Amil, Medial e Tempo Participações, focadas em planos médico-hospitalares e odontológicos, Odontoprev, líder da área de cuidados bucais, e Dasa, que realiza análises clínicas e medicina diagnóstica.
O diretor-geral da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Fábio Fonseca, revela que esse é um mercado que abrange cerca de 53 milhões de pessoas. “Representamos um em cada quatro habitantes, do Oiapoque ao Chuí, nesse mercado, fazendo com que ele seja extremamente representativo, com nível de faturamento na ordem de R$50 bilhões por ano”, afirma.
Para avaliar o andamento do negócio, o diretor-geral chama atenção para duas informações importantes nesse setor: “Uma chama-se frequência e outra severidade. Frequência é o número de vezes que as pessoas vão ao médico e fazem exames. Severidade são as chamadas grandes cirurgias, que possuem custos extremamente elevados”.
Embora a sinistralidade tenha aumentado substancialmente, Fonseca não vê esse acréscimo com grande preocupação. “Houve um incremento na frequência, já que mais pessoas estão fazendo exames de sangue, por exemplo. São eventos que geram frequência, mas o custo não é tão severo como o de uma cirurgia”, diz. Ele entende tal efeito como pouco significativo e acredita que o mercado está se mostrando bastante capaz de superá-lo.
Em contraponto, destaca ainda o crescimento do setor nos últimos dois anos. De março de 2007 ao mesmo mês de 2009, a atividade passou de 32 milhões de beneficiários para quase 40 milhões. “Você observa um crescimento de mais de 7 milhões, o que dá aproximadamente 22% em dois anos do número de vidas”, sinaliza Fonseca.
O acréscimo de clientes gerou um aumento de 18% na receita total no mesmo período. Em 2007, a receita total das operadoras de saúde suplementar era pouco superior a R$9 bilhões por trimestre. Hoje, ela já ultrapassa a casa dos R$12 bilhões. “É um mercado em crescimento, de concorrência forte, mas também é um mercado que precisa ser regulado, no qual você tem entre 1.300 e 1.400 operadoras efetivamente ativas”, explica Fonseca.
Apesar de ser grande o número de empresas atuando na área e a quantidade de pessoas que atende no Brasil, o setor, felizmente, não está entre os dez mais reclamados na Fundação Procon-SP. O órgão realizou, de fevereiro a agosto de 2009, 5.933 atendimentos referentes a reivindicações da área de planos de saúde e odontológicos. Desses números, 195 chamados foram para a Amil e 389 para a Medial. Nesse mesmo período, o Procon-SP recebeu um total de 162.662 ocorrências. As principais reclamações dos consumidores foram feitas devido a negativas de reembolso e de cobertura e maus atendimentos.
Em virtude das crescentes exigências feitas pela ANS, algumas empresas estão se unindo ou adquirindo umas às outras. “Se a gente pegar os dados da ANS dos últimos 12 meses, até março, temos 1.259 operadoras de saúde. Essa é uma queda de 5,7% ano contra ano”, pontua Gewehr.
O analista acredita que isso se intensificará ainda mais devido ao crescimento de regras no setor. “No ano passado, a ANS colocou uma provisão de que as empresas têm de fazer uma reserva de 9,5% de suas receitas nos últimos 12 meses para arcar com suas provisões. No dia 15 de julho, ela soltou uma nova provisão, que determina que os operadores só podem reajustar os contratos uma vez por ano e que só podem ser cancelados após 12 meses, com pelo menos 60 dias de notificação antecipada. Eu acho que ela vai favorecer os operadores que têm processos de subscrição ou precificação melhor para o mercado”, analisa.
Iago Whately é outro que confirma a tendência à consolidação. “Esse número atual de empresas não é saudável, porque nem todas são capazes de garantir que daqui a alguns anos estarão capitalizadas e com capacidade para atender seus usuários. Quem faz um plano hoje espera que ele continue atendendo durante anos. Por isso, a ANS tem aumentado as exigências tanto de capital como de procedimentos a serem prestados pelas operadoras, o que tem feito com que algumas não consigam se encaixar. Então, muitas serão compradas, outras fechadas e, com isso, o número tende a diminuir”, diz.
Muito se tem especulado sobre um possível “namoro organizacional” entre as empresas Amil e Medial. Ambas, entretanto, negam veementemente a união. A Medial divulgou, até mesmo, no início deste ano, uma nota em seu site repudiando as especulações.
Em relação à Amil e Medial, Fonseca observa uma aproximação, mas não confirma os rumores da união: “Eu acredito que a Amil e Medial devem se falar todo dia. Elas são concorrentes, atuam em segmentos muito parecidos, estão nas capitais geográficas mais importantes do País e têm profissionais que conhecem uns aos outros. Consequentemente, elas se conversam, aí pode ser que futuramente venham a se juntar”. Entretanto, ele relembra que as duas fazem parte da bolsa de valores e, portanto, não podem incitar os ruídos de fusão. “Empresas da bolsa não podem fazer esse tipo de especulação. E, até onde a gente sabe, elas já negaram diversas vezes”, pondera.
Embora indique a tendência de consolidação, Whately não espera uma união da Amil com a Medial. “Eu acredito mais em movimentos de fusão e aquisição envolvendo operadoras grandes e pequenas operadoras que entre operadoras grandes. O futuro desse mercado é muito mais um futuro que vai ter 50 operadoras grandes, em vez de 1.500 operadoras, das quais 10 são grandes e 1.490 são pequenas”, alega.
Gewehr também afirma que não há nada de concreto entre as companhias. Ele, entretanto, coloca uma cereja na discussão. “Tudo dependeria do preço a ser pago. Pelo racional, do ponto de vista estratégico, faria sentido uma união, porque eu teria a maior empresa do Brasil, com mais de 4 milhões de membros e uma receita de R$6 bilhões. Ela teria um poder de barganha muito grande”, constata.
Confira a reportagem na íntegra na edição de outubro da InvestMais
Autor(a): Larissa Moutinho
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