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01/04/2010

ESTAGFLAÇÃO - Economia Internacional

O fantasma do aumento de preços com economia parada assusta o mundo. Veja o que os principais países vão fazer

Existem certas coisas que desafiam o senso comum. E se pararmos para pensar, não deveriam existir. Pegue, por exemplo, o gol olímpico – quando a pessoa cobra o escanteio e a bola, sem tocar em ninguém, entra no gol. Não deveria ser possível. Alguns besouros cujas asas seriam muito pequenas para sustentá-lo no ar e, ainda assim, voam. O ornitorrinco. Alguns refrigerantes regionais, que atraem cada vez mais clientes, mesmo gastando zero em publicidade contra as multinacionais que investem milhões e milhões.

Em economia, um desses eventos que não deveriam existir é a estagflação – situação em que quase ninguém compra, quase ninguém vende e, mesmo assim, os preços sobem. Uma situação esdrúxula que ameaça surgir novamente neste ano em alguns países da Europa.

 

O nó nos conceitos – A lei da oferta e da procura faz parte do bê-á-bá da economia: basicamente se há muita gente atrás de determinado produto ou serviço, seu preço sobe. Se ninguém quer aquilo, o preço caí. A estagflação coloca isso em cheque. A questão se torna ainda mais complicada quando se analisa separadamente os remédios mais receitados para os problemas:

  • Em caso de recessão ou estagnação, coloque mais dinheiro em circulação, baixe juros e diminua impostos.
  • Em caso de inflação, tire dinheiro do mercado, aumente juros e impostos.

 

E se os dois acontecerem juntos... e aí? O que fazer? Se analisarmos a história, veremos exemplos que pouco ajudam na situação de hoje. Nos idos de 1970, houve dois momentos de estagflação no mundo. O primeiro, na América Latina. Não o sentimos muito porque possuíamos muitas outras coisas para nos preocupar na época. De qualquer forma, nem tínhamos muito poder para reclamar, sob o regime da época.

O segundo momento, que atingiu principalmente os Estados Unidos, foi uma reação à crise do petróleo. Ocorreu quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) descobriu o poder que tinha e diminuiu a produção do material. Naquele momento, tabelar o combustível foi a solução encontrada pelo governo dos Estados Unidos (então sob Nixon, cuja maior contribuição para o mundo foi fazer com que todo e qualquer escândalo governamental ganhasse o sufixo “gate”. Mas isso é outra história). Em vez de deter a estagflação, isso causou uma falta generalizada de combustível.

O governo local tentou de novo, estimulando a economia de combustível. Mas a saída da estagflação foi mesmo causada por dois fatores: 

  • A descoberta de novos poços de petróleo em países alternativos, o que, em termos não tão técnicos, podemos chamar de “mais sorte que juízo”.
  • A coragem do então presidente do Fed, Banco Central norte-americano, de elevar os juros a 19%, para quebrar as expectativas inflacionárias.

 

A estagflação de hoje – Em todo mundo, economistas discutem se já estamos ou não vivendo essa situação. Alguns afirmam se tratar apenas de uma recessão. Para o consultor Peter Cohan, que também leciona Gestão em Babson, uma das melhores escolas de empreendedorismo do mundo, a fria análise dos números traz a resposta: em janeiro, a inflação norte-americana aumentou um ponto percentual, o maior crescimento em 16 anos. “Trata-se apenas de mais uma evidência que o corte de juros do Banco Central norte-americano está tendo o efeito desejado e a atual administração não pensa em assumir o papel de combatente de inflação, pelo menos no momento”, explica.

Apesar de o Fed ser um banco central independente, é inegável que, mesmo lá, as eleições que se aproximam pesem nas decisões. Especialmente se considerarmos que é provável existir uma alternância no poder, dadas as poucas chances do Partido Republicano e aos dois ótimos candidatos Democratas.

Os analistas políticos locais estão de olho em dois possíveis cenários:

  • Se o Fed conseguir evitar uma estagflação mais grave – O grande desafio será colocar a economia local nos eixos para a eleição de governadores em 2010 e a do próximo presidente, em 2012. Isso fará com que as taxas de juro locais aumentem, se a economia mundial estiver cambaleante, espera-se uma recessão global.
  • Se o Fed não conseguir evitar a estagflação – Hillary ou Barack farão a festa, culpando os Republicanos pelo lamentável estado da economia e ainda levarão o crédito por derrotar a inflação em 2009/2010 e pelo crescimento econômico que deve se seguir.

 

Enquanto isso, o resto do mundo mostra sinais preocupantes. Um desses grandes avisos pode ser percebido pela mudança de nomeclatura usado por muitos presidentes de Bancos Centrais e economistas do FMI. Hoje, poucos falam em “primeiro mundo”, preferindo a expressão “economias maduras”. A analogia é clara: são mercados que não têm mais o que crescer nem o que evoluir ou mudar – e do mesmo jeito que uma fruta, depois que amadurece, se ninguém aproveitar, apodrece.

A economia de Singapura, um dos termômetros do mercado mundial, por exemplo, despencou 4,8% no trimestre de outubro a dezembro de 2007. Ao mesmo tempo, o preço de muitos produtos está subindo, e não descendo, como se espera no desaquecimento econômico. O petróleo, novamente, é o maior exemplo disso, mas os produtos agrícolas não ficam atrás. O mundo agora tem a obrigação de alimentar uma China e uma Índia mais ricas, um dilema a todos os produtores: plantar comida ou plantar combustível?

Na Índia, a estagflação já está começando a ser sentida. A diminuição dos negócios fez aumentar o déficit comercial do país, causando a desvalorização da Rúpia, a moeda local. Em qualquer outra época, isso criaria um estímulo à exportação, mas poucos querem comprar. A saída da economia local é estimular a substituição das importações.

No Brasil, ainda estamos vendendo, e vendendo muito bem, obrigado. A princípio, a recomendação do governo de buscar negócios com parceiros não-tradicionais tornou o País menos vulnerável, por enquanto, às dificuldades das grandes economias.

Na zona do euro, o Banco Central europeu diz à seus países-membros que, por enquanto, não há riscos de estagflação, mas que se deve evitar o aumento dos respectivos salários mínimos para evitar o risco de inflação. Para o resto do mundo, isso significa que não haverá dinheiro extra vindo da Europa.

 

O que diz o FMI – O velho Fundo Monetário Internacional, quem diria, também está mandando os países soltarem um pouco as rédeas da economia. A política fiscal austera, diz o diretor da instituição, Dominique Strauss-Kahn (mais conhecido como DSK), não funciona tão bem em tempos de desaceleração.

Durante o encontro do G-7 (grupo dos países mais ricos do mundo), que se realizou no começo de fevereiro, DSK sugeriu que todos aqueles países diminuíssem os impostos e aumentassem os gastos – e já vimos que a Europa, por enquanto, não está inclinada a seguir a recomendação.

Joaquín Almunia, o principal comissário europeu para assuntos econômicos, disse que há um exagero nessas medidas. Mesmo um ex-diretor do FMI, Ken Rogoff, diz que as medidas pretendidas por DSK apresentariam um “resultado dúbio”.

Analistas afirmam que tanto DSK como os europeus podem estar certos, depende de como cada país responde estas perguntas:

  • Você tem fôlego para adotar uma medida fiscal de emergência, se necessário?
  • E que evidência você tem que essa medida funcionaria?

 

Se julgarmos apenas pelo déficit fiscal, além dos Estados Unidos, é a Inglaterra que tem mais a temer as respostas dessas perguntas. Além do déficit e do crescimento da dívida, a Inglaterra, boa parte da Europa e o Japão têm mais um problema a colocar na equação: o envelhecimento da população. Existe cada vez mais gente aposentada, que é sustentada cada vez menos por gente economicamente ativa (a Alemanha, por exemplo, vê sua população diminuir). É um problema estrutural nessas economias, que tira sucessivamente uma parcela do mercado. Com as pessoas tendo de destinar mais e mais dinheiro para sustentar quem já não está no mercado de trabalho, sobra menos dinheiro para comprar outras coisas. E é justamente um estímulo a um consumo maior que pode evitar cenários como a recessão ou estagflação.

Economistas que se alinham com DSK contra-argumentam com uma sofisticação do ditado: “Remédio na hora da morte não adianta”, que é natureza da classe política adiar o máximo possível medidas impopulares (mesmo que necessárias). No Brasil, tivemos recentemente um exemplo claro: uma necessária, na época, desvalorização do Real só aconteceu depois que o presidente Fernando Henrique garantiu a reeleição.

Assim, alegam esses economistas, as medidas tardias de estímulo ao consumo só servem para uma coisa: estimular a inflação, e não o movimento da economia. Ao mesmo tempo, poucos governos têm a disposição de controlar e cortar seus próprios gastos, o que eleva ainda mais o débito potencial nas contas. Em seu auxílio, esses economistas linhas duras citam o Japão e seu período de estagnação e deflação, por volta de 1990: diversos pacotes foram anunciados, mas a injeção de dinheiro por vias fiscais na economia não apresentou resultados por uma década. Nessa disputa de visões da economia, somente a Espanha dá sinais de pensar em obedecer o FMI.

Enquanto isso, as medidas ousadas de estímulo da economia vindas dos Estados Unidos não parecem estar surtindo resultados. A notícia de que os norte-americanos gastaram 0,4% a mais em janeiro sumiu ao se descobrir que a inflação nos alimentos e combustíveis também ficou perto de 0,4%. O aumento de consumo esperado não aconteceu, e os preços subiram. O fantasma da estagflação parece cada vez mais sólido.

 

O que os donos dos cofres têm a dizer

 

  • “A economia enfrenta hoje uma ameaça tripla: desaceleração nos mercados financeiros, pressões no capital dos bancos e esfacelamento do crédito. Espera-se uma atividade econômica a um passo muito lento a curto prazo. Estamos avaliando todas as informações de modo cuidadoso e vamos agir no momento certo para estimular o crescimento e prover a segurança necessária contra desequilíbrios na economia.” Ben Bernanke, Presidente do Fed.
  • “A economia global deve se apoiar no dinamismo da região da Ásia e do Pacífico, que devem crescer enquanto outras áreas perdem seu ritmo. A questão é como, e até que ponto, uma eventual crise em alguns mercados maduros pode ser compensada por um maior crescimento em outras regiões. Uma boa análise e um diagnóstico pertinente são necessários para que possamos fazer correções de mercado de maneira mais ordeira e leve possível.”  Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central europeu, que dá sinais de manter sua taxa de juros em 4%.
  • “A julgar pela volatilidade das Bolsas de Valores, investidores ainda mostram uma grande aversão ao risco. Conforme os mercados de capital se tornam mais globalizados, é essencial que os Bancos Centrais trabalhem mais próximos uns aos outros e que ajam como o último recurso das economias, se necessário.”Toshihiko Fukui, governador do Banco Central do Japão (cujo mandato acabou em março deste ano).
  • “Na teoria, a constante valorização do iuan pode reduzir os custos de importação e acabar com as ameaças de inflação em território chinês. Mas uma valorização muito abrupta trará conseqüências indesejáveis, como deflação. Esperamos que nos próximos meses, o iuan atinja um nível de equilíbrio em relação ao dólar.” Zhou Xiaochuan, diretor do Banco Popular da China (o FMI pede que a moeda local seja valorizada mais rapidamente).
  • “Mantendo o resultado dos últimos 12 meses é possível chegarmos ao fim de 2008 com uma taxa de juro por volta dos 5%.” Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do Banco Central do Brasil.


Autor(a): BRASILIO ANDRADE NETO


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