Um dos maiores jargões no mundo empresarial é quando as organizações enchem o peito para falar: “Nosso foco é 100% voltado ao cliente”. Como se isso fosse o maior diferencial do mercado e ninguém mais fizesse o mesmo. O que essas empresas esquecem é que, antes de ter foco no cliente, é preciso se lembrar de quem está atrás do balcão, cara a cara com o consumidor.
Sim. Ninguém mais senão os colaboradores, que fazem parte da estrutura da corporação. Do operário ao diretor, são esses os responsáveis por fazer o dia a dia da empresa e construir a estrutura necessária para o sucesso.
E é justamente a ausência dessa preocupação com o bem-estar do quadro pessoal por parte dos gestores que causa a fuga dos talentos e, pior e consequentemente, o fracasso de uma empresa. Nessas horas, o foco 100% no cliente pouco vale.
O presidente da Starbucks, Howard Schultz, já disse que “as pessoas querem fazer parte de algo maior que elas mesmas. Desejam fazer parte de algo do qual possam se orgulhar, pelo qual possam lutar e se sacrificar”. E isso precisa ser percebido e proporcionado pela liderança, caso contrário, não passarão de talentos desperdiçados. E é essa a deixa para, enfim, falarmos sobre investimentos. Uma grande empresa precisa de talentos para se tornar grande. São eles que, mais tarde, serão os responsáveis pelo futuro retorno financeiro gerado a você, acionista, que acreditou no potencial da companhia.
Daí a pergunta: você já parou para pensar em como é gerido o processo de recrutamento e seleção – e o departamento de recursos humanos como um todo – das empresas em que você investe? A princípio, ter acesso a essas informações pode ser uma tarefa difícil, mas existe uma boa forma de descobrir.
A consultoria Great Place to Work (GPTW), que é a responsável por produzir a lista das melhores empresas para se trabalhar, pode ajudar nessa tarefa. Um estudo realizado por ela concluiu que investir em organizações com foco no colaborador (ou seja, as vencedoras do prêmio) pode ser mais lucrativo que optar por outras.
Para chegar a tal conclusão, o pessoal da GPTW reuniu dados entre 1998 e 2008. Nesse período, as melhores companhias para se trabalhar nos Estados Unidos – que têm capital aberto e são listadas no S&P 500 – apresentaram valorização de 11,9% contra 6% das demais empresas.
Trazendo a realidade para o Brasil, um investimento de R$100 no ano 2000, teria se transformado em R$409 em 2009 caso tivesse sido feito no Índice Bovespa. O mesmo investimento teria rendido o triplo (R$1.205) se tivesse sido feito nas Great Place to Work de 2009.
Tal resultado provou que “as empresas com as melhores práticas de gestão de pessoas são mais produtivas e lucrativas, ou seja, o impacto das melhores práticas em gestão de recursos humanos se tornou rentável para as companhias e para os investidores”, destaca Ruy Shiozawa, CEO da Great Place to Work no Brasil.
Mesmo durante a crise, as empresas Great Place to Work se sobressaíram. Em 2009, acumularam 6,8% de valorização no S&P 500 contra 1% das demais. “Os resultados das pesquisas são muito claros: as melhores empresas atraem os melhores talentos do mercado e têm equipes muito mais comprometidas. Com isso, são mais produtivas e inovadoras, o que acaba criando um poderoso diferencial competitivo para essas organizações”, afirma Shiozawa.
Ele defende que o investidor não precisa se perder em números e balanços para saber onde investir. Opinião que vai muito de encontro com a lógica “buffettiana” de investir. Negócios fáceis, dentro de um mercado em expansão e que sejam muito bem geridos.
Mas e quais são as Great Place to Work listadas na Bovespa?
O ranking produzido pela GTPW muda anualmente. Qualquer empresa, de capital aberto ou não, independentemente do seu porte, pode se inscrever. Os pontos avaliados são os seguintes:
Para conseguir essas informações, a GPTW aplica um questionário aos funcionários. Dois terços da nota vêm disso. A outra parte compreende as políticas e práticas de gestão de pessoas, que são obtidas por meio de um questionário respondido pela liderança da companhia. Em 2009, o ranking ficou assim:
Das 10 melhores, apenas a Plascar (PLAS3) tem suas ações listadas na bolsa:
1. Caterpillar
2. Chemtech
3. Kimberly-Clark Brasil
4. Plascar (PLAS3)
5. Laboratório Sabin
6. Accor
7. Pormade
8. Kaizen
9. Microsoft
10. Cisco do Brasil
Depois, empatadas em 26º lugar, temos:
Inclui apenas as empresas de capital aberto.
Das sete empresas listadas na BM&FBovespa, quatro tiveram desempenho superior ao Ibovespa em 2009, enquanto as outras três perderam.
O fato de algumas empresas terem perdido para o Índice pode até ser questionado, mas a defesa da GPTW é que, além de 2009 ter sido um ano atípico em função da recuperação econômica, ele foi o ano em que elas apenas começaram a sentir os efeitos de ser uma Great Place to Work. A lógica pode ser comparada ao próprio investimento em ações – os resultados vêm a longo prazo.
Indicadores de desempenho
A Great Place to Work criou ferramentas para atestar a relevância do título. “Criamos alguns indicadores para acompanhar o desempenho dessas empresas comparando-as com a média de mercado”, revela Shiozawa.
O primeiro indicador é o nível de satisfação de clientes entre as empresas GPTW e as que não são. Para isso, é feita uma comparação entre o nível de ambiente de trabalho e a satisfação de clientes. “Não preciso nem dizer que as GPTW têm índices infinitamente maiores”, destaca o CEO.
A rotatividade dos funcionários é o segundo indicador. “Há setores da economia que apresentam índices de rotatividade muito altos. Alguns, como o varejo, chegam a ter cerca de 53% de rotatividade em um ano, ou seja, nesse período, a cada duas pessoas, uma vai embora. Quando falamos de Great Place to Work, esse número cai para 14%”, comemora Shiozawa.
O setor hoteleiro também tem altos níveis de rotatividade. A taxa, que é de 50%, normalmente cai para 19% nas GPTW. “Como resultado disso, as empresas têm custos infinitamente menores e, mais tarde, isso é refletido em seus resultados”, explica Shiozawa.
Por fim, o terceiro indicador considerado é justamente a valorização das ações das empresas. Como dito anteriormente, as GPTW tendem a se sobressair perante as outras empresas e, até mesmo, ante o Ibovespa.
O que o prêmio representa para a empresa
Ruy Shiozawa enumerou três aspectos que mudam para a empresa após ela ser contemplada com o título de Great Place to Work:
1. Aumenta a atração dos talentos presentes no mercado – As pessoas que estão dentro não querem sair e as que estão fora querem entrar. Então, além dos processos naturais de recrutamento, ela passa a ter uma capacidade maior de atrair talentos.
2. Clientes e fornecedores acabam preferindo trabalhar com essa empresa – Quando sabem que o ambiente de trabalho é bom, imaginam que a qualidade dos serviços prestados é melhor.
3. Internamente o impacto é muito grande – Essas empresas atingem seus objetivos mais facilmente e estão melhor preparadas para enfrentar períodos adversos.
Por fim, Shiozawa faz uma brincadeira com uma certa sutileza de verdade. “Para quem quer investir, não entende muito de finanças e não quer se preocupar com números, é só pegar a lista das melhores e comprar uma (ou algumas) delas. A chance de ganhar dinheiro é muito grande, justamente pelo maior envolvimento e comprometimento dos colaboradores e a maior credibilidade juntos aos clientes”, finaliza.
Autor(a): João Guilherme Brotto
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