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01/02/2010

O ano da retomada

Tempo de fazer o pé-de-meia?

Você provavelmente já passou por um acidente em uma estrada. Carro amassado, guincho, polícia, ambulância... O interessante é a reação de dos motoristas nessa situação. Todos vêm na velocidade que seus veículos permitem, acelerando, às vezes ultrapassando em faixa contínua, aí veem os sinais do acidente. Para que o resgate possa trabalhar, muitas vezes são obrigados a reduzir para 20 quilômetros por hora. Dali a pouco, a pista limpa e todos passam a respeitar o limite de velocidade e ser mais cautelosos.

A lembrança do que pode acontecer, no caso de direção imprudente, está logo ali, poucas centenas de metros atrás. Passam-se alguns quilômetros, os motores voltam a se encher, primeiro hesitantes, acelerando um pouquinho mais para não se atrasar tanto. Mais alguns quilômetros e todos estão novamente na velocidade em que estavam, cometendo os mesmos erros e imprudências que, provavelmente, causaram aquele acidente.

Economicamente, o mundo acabou de passar por um “baita” acidente. Governos, bolsas e instituições bancárias assistiram, assustados, a um megaengavetamento, em que muitos saíram da estrada, capotaram e encontraram o fim da linha. De fato, ninguém conseguiu passar sem, pelo menos, um arranhãozinho na lataria, o que aumenta o susto.

            Em 2010, veremos o pessoal começar a perder a cautela, conforme as boas notícias forem se acumulando em todo o mundo. O Japão, por exemplo, deve crescer 1,1% em 2010. A Zona do Euro (países da Europa que usam a moeda única) crescerá 0,9%. Os Estados Unidos, que iniciaram e possivelmente foram os mais atingidos por essa crise, devem fechar 2010 com 2,9% de crescimento.

No Brasil, instituições como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) esperam um crescimento de 4,8% em 2010. O Banco Central e o varejo, em geral, aguardam um aumento de 5%, o mesmo nível que tínhamos antes do começo dessa bagunça econômica toda.

Entretanto, para a parte que nos interessa, analistas já começam a prever a bolsa nos 90 mil pontos em 2010. Certo, previam isso também pouco antes do início da crise, mas, dessa vez, o otimismo é global. Passamos pelo acidente. Enquanto as pessoas não voltam a acelerar, é hora de aproveitar uma viagem um pouco mais tranquila, sem sustos desnecessários.

 

A bolsa reforçada

Não são poucas as novidades que esperam a BM&FBovespa em 2010. Para encurtar a história:

 

  • Um grande número de IPOs, que podem receber a isenção da taxa de 2% de IOF para investimentos estrangeiros.
  • Setores importantes, como o de energia elétrica, devem ver grandes empresas se fundindo.
  • A bolsa promete oferecer novas categorias de investimento. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central que assumiu, em abril de 2009, a presidência do conselho de administração da BM&FBovespa, afirmou que pretende expandir o campo de atuação da bolsa para outras áreas, “como derivativos, ampliação de contratos agrícolas, de créditos de carbono e hipotecas”.
  • A Bovespa pretende atrair as maiores empresas da América Latina para cá. O plano é que as dez maiores empresas de cada bolsa latina também vendam seus papéis na Bovespa, potencialmente dando aos brasileiros mais 170 papéis para negociar nos pregões.
  • Tanto as corretoras nacionais como internacionais começam a lançar fundos baseados nas empresas que devem ganhar mais com os jogos olímpicos no Rio. Somente a Daiwa, uma das maiores corretoras do Japão, arrecadou perto de 1,8 bilhão de reais nas três primeiras semanas de novembro, com o lançamento de um fundo de ações baseado nas empresas brasileiras que podem se envolver com as Olimpíadas. Para deixar claro: quase dois bilhões de reais. De pessoas físicas do Japão. Em três semanas. E esse não é o único fundo criado recentemente lá fora baseado em papéis brasileiros.

 

É a primeira vez que a bolsa do Brasil se transforma no investimento, aquele no qual todo mundo está de olho. Emergimos da crise como um local em pleno crescimento, onde há regras e controles rígidos na economia, o que evita o surgimento de fundos discutíveis. Além disso, temos instituições sólidas, uma democracia blindada contra aventureiros e as multinacionais “made in Brazil” começam a aparecer. Dificilmente, essa conjuntura de fatores irá se repetir, tornando os anos de 2010 a 2016 extremamente positivos para a bolsa de valores. Afinal, nada pode dar errado, não é mesmo?

 

A turma do contra                             

Segundo alguns analistas, não é bem assim. Há bilhões e bilhões de dólares sendo colocados, agora, em países que até pouco tempo atrás não recebiam todo esse dinheiro. A preocupação, no momento, está concentrada na Ásia, principalmente na China, Hong Kong, Cingapura e Vietnã – países em que o capital especulativo encontrou solo fértil e correu para comprar todos os imóveis que podia. Um documento recente do FMI afirma que é grave o risco causado pelas “condições de liquidez no curto prazo sem relação com as forças fundamentais da oferta e demanda”. Traduzindo: há muita gente por lá comprando casa para investir e especular, e não para morar ou trabalhar. Com isso, o metro quadrado naquela região já chegou a 18 mil reais e continua subindo.

            Na Austrália, a situação é parecida. Analistas dizem que o preço dos imóveis locais irá dobrar nos próximos 12 anos. Criou-se, assim, um mercado do desespero: todo mundo procura comprar os imóveis o quanto antes, porque, depois, não irá conseguir o dinheiro necessário. Assim, com mais pessoas procurando casa, os preços aumentam, o que dá margem para uma nova rodada de opiniões dos analistas: “Gente, estávamos errados. Nesse ritmo, o preço dos imóveis vai dobrar em 8 anos, e não em 12”.

Aí é só uma questão de tempo para a nova bolha ser detonada: basta que a Europa e os Estados Unidos subam suas taxas de juros, o que irá acontecer cedo ou tarde – não dá para manter os estímulos econômicos para sempre. Assim que os juros no primeiro mundo subirem, muitos investidores irão voltar a aplicar lá, gerando uma onda de vendas de imóveis, fazendo os preços despencarem, descapitalizando os bancos que trabalham com hipoteca... bom, já vimos esse filme.

Ao levarmos isso em conta, as preocupações do Banco Central em blindar o Brasil contra o excesso de entrada de capital especulativo faz sentido. E novas medidas vêm por aí, todas, infelizmente, com um lado favorável e outro nem tanto. Temos, por exemplo, os estudos sobre investimento no exterior: o governo pensou primeiro em criar fundos de investimento destinados a estrangeiros, em real. Isso criaria uma outra porta de entrada para o capital internacional, que não causaria tanta especulação no mercado.

O problema é que o Brasil está tão bem-visto economicamente que a medida poderia causar falta de real no mercado e, como a velha lei da oferta e demanda explica, isso significaria uma moeda ainda mais forte e valorizada diante do dólar – a última coisa que se precisa agora. Por isso, estuda-se facilitar o investimento de brasileiros no estrangeiro, o que geraria o fluxo inverso e ajudaria a manter o dólar entre os desejados R$1,70 a R$1,80. O problema é que, na situação atual, isso é o mesmo que convencer alguém que mora em Fernando de Noronha a se mudar para “São João do Fim do Mundo”. O lugar mais seguro e lucrativo para o capital, atualmente, é o Brasil. Então, investir lá fora para quê?

 

Gato escaldado                                                          

Recentemente, tivemos um exemplo do quão frágil pode ser a recuperação econômica. O anúncio feito em novembro de 2009 do calote de Dubai World nos credores internacionais levou a uma queda geral nas bolsas do mundo inteiro, mais por puro reflexo que por análise racional do acontecido. O mercado internacional correu para isolar Dubai, o emirado, de Dubai World e sua incorporadora, tentando evitar que o caso se transformasse no maior calote dado por um país, desde o da Argentina, em 2001.

Os investidores internacionais guardaram o dinheiro embaixo do colchão até a situação ficar mais clara. Mais um exemplo de como a bolsa funciona melhor a longo prazo: se você pensa em aplicar hoje para colher os frutos em cinco ou dez anos, esses sustos e movimentos bruscos do mercado não o incomodam. E há setores na economia brasileira que irão se beneficiar muito nesse prazo mais longo – graças aos investimentos e melhorias que têm de ser feitos.

 

Contra fatos

No fim das contas, o que fica são os números das empresas, o que elas lucram e podem lucrar e o que as espera nos próximos anos. E, nessa análise, as companhias brasileiras da bolsa vão bem, obrigado.

Estimuladas pelo dinheiro do BNDES, nos últimos anos, surgiram as gigantes multinacionais brasileiras, prontas para enfrentar a concorrência lá fora. O próprio mercado nacional melhorou, com o aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas e incentivos nas áreas automobilísticas e de construção. Ainda está longe de ser o melhor do mundo, lógico. Há o excesso de tributos e burocracia atrapalhando nossas empresas, como sempre.

Mesmo assim, muitas conseguem lucratividades expressivas. Só para citar um exemplo, vez por outra, as filiais brasileiras das instituições financeiras multinacionais são as mais lucrativas do grupo. Com todos os obstáculos, as empresas conseguem ganhar dinheiro. E, aos poucos, isso reflete na população. O brasileiro, na média, está um pouco mais rico e podendo consumir mais.

Segundo o IBGE, em outubro 2009, a renda média das pessoas com emprego no Brasil subiu 3,2% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. A questão é investir nas empresas que têm mais chance de “abocanhar” parte desse dinheiro extra. E são cada vez mais os pequenos investidores interessados nisso.

 

O comportamento do pequeno investidor

Em outubro de 2009, segundo a Bovespa, os pequenos investidores que trabalham com home broker realizaram 5.973.285 negócios, sendo responsáveis por movimentar R$60,99 bilhões, recorde para esse público. O brasileiro está aprendendo a gostar da bolsa, e com razão. Por enquanto, são poucos os que a veem como um investimento a longo prazo – é só perceber quantos dizem que “perderam dinheiro” em 2008. Quem não tirou seu dinheiro não perdeu nada e, dependendo da ação, ainda embolsou alguns dividendos.

Muitos desses pequenos investidores, entretanto, ainda pensam a curto prazo e vendem suas ações assim que identificam uma subida modesta. Quem escolhe bem as ações e resiste à tentação de vender no primeiro susto ou supervalorização colhe os frutos com tranquilidade. É isso que você irá ver nas próximas páginas. Aproveite a leitura e comece já a fazer o seu pé-de-meia.


Autor(a): Brasílio Andrade Neto


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