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01/04/2009

Açúcar Guarani SA - ACGU3 x São Martinho SA - SMTO3

Ações doces como açúcar... ou uma baita ressaca?

Impulsionado pelo aumento de carros flex no mercado e pela diminuição da atratividade do gás como combustível, o etanol parece ter caído de vez nas graças do brasileiro. Ele já representa 60% da preferência dos motoristas de carros bicombustíveis no Brasil, que, por sua vez, formam hoje 20% da frota total de veículos. Segundo previsão do Ministério das Minas e Energia (MME), a demanda por tal combustível promete continuar em ascensão nos próximos dez anos e chegar a um crescimento de 150%. Se a expectativa for confirmada, a produção brasileira de etanol passará de 25,5 bilhões de litros ao ano, em 2008, para 63,9 bilhões de litros, em 2017.

 

O açúcar brasileiro também promete crescimento. Para Arnaldo Luiz Correa, sócio-diretor da Archer Consulting, o setor deve ter melhor desempenho operacional em 2009, motivado pelo aumento do dólar, que garantirá um preço ainda melhor ao açúcar, e por uma menor safra na Índia, que concorre com o Brasil pelo mercado mundial. Segundo estimativas, o país asiático deverá produzir aproximadamente 19 milhões de toneladas de açúcar na safra 08/09, o que representa um decréscimo de 27% se comparados com a safra 07/08.


O diretor de comunicação corporativa da União da Indústria de Cana-de-açúcar (UNICA), Adhemar Altieri, também confirma o bom momento: “No Brasil, o setor teve um ano positivo, a produção de cana-de-açúcar foi recorde, está tudo em alta, das 32 usinas novas previstas para entrar em operação na região centro-sul, 31 entraram”. Para ele, a prova de que o setor merece atenção vem do fato de que várias empresas estrangeiras optaram por entrar no País, em 2008. “A British Petroleum entrou numa parceria para construir usinas no Brasil. Ela foi a primeira empresa da área petróleo a investir em um projeto de biocombustível no mundo. Outro exemplo é a Archer Daniels Midland, norte-americana que é grande produtora de etanol de milho nos EUA e fechou uma parceria aqui com um grupo de usinas do Brasil, para expandir sua presença no País, na produção de etanol de cana”.


Vale ressaltar que os dois exemplos citados por Adhemar pertencem justamente a concorrentes dos produtos derivados da cana. “Tudo isso é indicador de que o setor tem um atrativo. Agora, esse não é um negócio para você investir hoje e sair no ano que vem. Construir usina leva de três a quatro anos. Não é um setor para aventura”, avalia Altieri.

 

Investimento

Diante desses cenários, a InvestMais resolveu analisar o setor sucroalcooleiro, formado pelos produtores de açúcar e álcool, para saber se essa é a hora para investir nele. O mercado aumentou apenas em exportações cerca de 18% na safra 2008/2009. Duas grandes empresas do setor, a São Martinho e a Açúcar Guarani, divulgaram recordes em seus últimos balanços, que consideram os meses de outubro a dezembro de 2008. A primeira obteve um crescimento de 17,4% no total de moagem, atingindo o recorde de 12 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Desses, aproximadamente 67% foram destinados à produção de etanol e 33% para o açúcar.


A Guarani também celebrou safra recorde, com moagem de 14,4 milhões de toneladas, resultando em 1,2 milhão de toneladas de açúcar e 496 mil m³ de etanol. A empresa comemorou, ainda, outro trimestre com receita líquida recorde: crescimento de 37,7% em relação ao mesmo período do ano passado.


As empresas brasileiras vêm se consolidando como uma das maiores forças mundiais, graças às fusões e aquisições que aconteceram recentemente no setor. A maior parte dessas uniões envolveu corporações situadas na região centro-sul, responsável por 87% da produção de cana-de-açúcar no País. Com a São Martinho e a Açúcar Guarani não foi diferente. Enquanto a primeira incorporou em abril de 2007 a Usina Santa Luiza e a Agropecuária Aquidaban, a Guarani adquiriu a SHL, uma holding de sua subsidiária operacional, Companhia de Sena, em Moçambique.


Nem tudo neste mercado, entretanto, é doce como o açúcar produzido. A dificuldade de crédito, que já assola empresas brasileiras, terá um peso grande na evolução do setor em 2009. “Nós estamos passando por um período de escassez total de dinheiro, não apenas no que se refere ao crédito propriamente dito, mas até nas operações que as corretoras davam para as usinas operarem no mercado futuro, para elas poderem fazer os seus hedges. Isso vai afetar o resultado final, porque a gente não sabe da dificuldade que cada usina pode ter de buscar dinheiro no mercado interno, o que vai fazer com que, eventualmente, possa haver uma desova de estoque a preços irrealisticamente baixos. A gente sabe que o setor está passando por dificuldades, há empresas que estão estudando um pedido de recuperação judicial e todas essas somas que estamos vendo fazem com que o crédito fique ainda mais escasso”, aponta Arnaldo Correa.


O consultor, entretanto, acredita que as maiores empresas estão consolidadas e sofrerão menos. “Cosan, São Martinho e Açúcar Guarani não devem passar por dificuldades”, aposta Correa, apesar dos balanços das duas últimas empresas terem ostentado prejuízos. A São Martinho registrou prejuízo líquido trimestral de R$36,361 milhões, situação negativa que se repete desde o quarto trimestre do ano fiscal de 2007. E a Açúcar Guarani, divulgou prejuízo líquido de R$113,006 milhões.


O desequilíbrio em ambos os balanços foi provocado principalmente pela variação cambial, que embora seja vantajosa para o preço do açúcar, é traumática para São Martinho e Guarani porque as empresas possuem dívidas em dólar. Além disso, ambas investiram em infraestrutura, o que gerou acréscimo nos custos operacionais.

 

 

Quem é quem

 

 

Açúcar Guarani

São Martinho

A Açúcar Guarani é a terceira maior processadora de cana-de-açúcar e a segunda maior produtora de açúcar do Brasil, além de estar entre as empresas que mais cresceram em produção de etanol nas duas últimas safras.

A organização possui seis unidades industriais, sendo cinco no Brasil e uma em Moçambique, na África. Ela mantém também um projeto greenfield no município de Pedranópolis, em SP.

A francesa Tereos, acionista controladora da Guarani, é uma cooperativa agroindustrial com experiência na produção de açúcar e álcool a partir da beterraba, da cana-de-açúcar e de cereais. É a quarta maior produtora de açúcar, de álcool e de produtos à base de amido do mundo.

A história da São Martinho teve início em 1914, quando imigrantes italianos da família Ometto fundaram seu primeiro engenho de cana-de-açúcar no Brasil. Hoje, quase um século depois, o Grupo São Martinho é um dos maiores do Brasil no segmento sucroalcooleiro e também uma referência mundial na produção de açúcar e álcool.

A organização inaugurou em 2008 sua terceira usina, a Boa Vista, em Goiás. Desde 2000, o grupo conta com uma estrutura unificada para administrar o negócio de maneira cada vez mais profissionalizada, possibilitando novas oportunidades de investimento.

O objetivo da São Martinho é triplicar o processamento de cana até 2020 e liderar na geração de valor através da produção e comercialização de produtos sustentáveis e na conquista de novos mercados.

A Guarani acredita na importância de uma atuação positiva nas áreas social e ambiental. Para isso desenvolve projetos e ações nas comunidades vizinhas às suas unidades industriais, com foco em educação e meio ambiente.

·   Sua missão é “oferecer alimentos, energia e demais derivados de cana que gerem valor para a humanidade, de maneira inovadora e sustentável”.

Estratégias


  • Focar na expansão da atividade de processamento de cana-de-açúcar para a produção de etanol.
  • Manter sua liderança em produtos de alto valor agregado e com maior margem.
  • Crescer seletivamente em mercados estratégicos no Brasil e no mundo.

·   Buscar continuamente redução de custos e aumento da eficiência operacional.

Fonte: www. acucarguarani.com.br

Estratégias

 

  • Crescer de forma orgânica e por meio de aquisições ou parcerias estratégicas ou por meio de novos projetos.
  • Continuar a reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência das operações.

·   Expandir sua participação nos mercados de açúcar e álcool internacionais.

Fonte: www.saomartinho.ind.br

 

 

Compra de ações

Segundo análise da SLW Corretora, o setor sucroalcooleiro terá um futuro promissor. “Quem tiver paciência, deve comprar as ações hoje, mas isso sem olhar para o curto prazo, porque senão é capaz de perder dinheiro. O mercado, além de estar muito volátil, não está passando por um momento muito bom. Agora, quem comprar visando um investimento de longo prazo, vai estar investindo em um setor promissor, principalmente pelo álcool”, revela um dos representantes da corretora.


O prejuízo acumulado pelas empresas São Martinho e Açúcar Guarani, segundo ele, se deve exclusivamente à alta do dólar, que subiu 22% no trimestre, impactando o endividamento das empresas. “Fora isso, o resultado operacional das duas foi muito bom. As duas tiveram vendas maiores e com preços melhores. A São Martinho teve um crescimento, uma operação de margens ainda maior que a da Guarani, porque operou com custo melhor. Não fosse o dólar, que acabou estragando o resultado do lucro líquido, o balanço teria sido melhor ainda”, conta o analista.


Já Peter Ping Ho, analista da Planner, é mais cauteloso em relação ao cenário atual. Para ele, “por enquanto não há sinais de uma recuperação como foi em 2006, quando o setor teve os melhores níveis de preços, tanto do açúcar quanto do etanol”. Ping Ho acredita que haverá uma melhora razoável, mas não muito expressiva para o setor em 2009. “A gente já vê vários países em recessão e isso pode prejudicar transações comerciais. Outro fator é a volatilidade do cambio, que embora de um lado favoreça as exportações, por outro prejudica quem tem grandes endividamentos em moedas estrangeiras, que é o caso das duas empresas. Elas estavam aproveitando o momento que o Real estava passando para captar recursos lá fora”, revela.


Outra desvantagem apontada por ele é a baixa no preço do petróleo, que torna o etanol menos atraente em relação à gasolina. “Se existe possibilidade de optar por outros tipos de ações, nesse momento, seria melhor, porque esse não é um cenário favorável para o setor”, aconselha Ping Ho.


O representante da SLW Corretora discorda e prefere focar sua análise no longo prazo. “Risco sempre existe, porque usinas podem quebrar lá na frente, mas no longo prazo, avaliando o setor, tem muita chance de dar um bom retorno aos acionistas”, defende. E se a ideia é opinar entre São Martinho e Açúcar Guarani, o analista fica com a primeira opção. “A São Martinho é uma empresa que me parece ter uma administração melhor, ela é menos endividada que a Guarani, que já foi buscar dois aportes de capital com o controlador. A São Martinho é uma empresa maior e mais robusta”, analisa o profissional. “Se for somente entre essas duas empresas, eu optaria pela São Martinho, pelo foco do mercado. A Guarani é mais açúcar do que etanol, ainda está começando a montar uma usina para o etanol, e quem tiver melhor flexibilidade nesse momento tende a se sair melhor, porque pode ajustar a produção de acordo com o mercado”, confirma Ping Ho.


O analista da Planner complementa sua análise, afirmando que “a Açúcar Guarani só não está em dificuldades, porque teve o aumento de capital que aliviou a situação”. “A São Martinho está mais equilibrada. Agora, as outras que não são de capital aberto correm risco por conta da dificuldade de crédito”, pontua.

 

 

Valor real

Arnaldo Correa, especialista em commodities e investidor particular, defende que este é o momento ideal para novos investimentos: “Nunca esteve tão barato investir nas empresas de açúcar que estão listadas em bolsa. Embora eu não seja um analista, pois não tenho autorização para isso, na minha ótica de investidor privado, vejo que há dois anos nós víamos os investidores estrangeiros pensarem no greenfield e investirem em usinas. Falava-se de usina ao preço de mais de U$130 por tonelada de cana moída. Se você comparar o preço hoje de uma Cosan, de uma São Martinho ou de uma Açúcar Guarani, em termos de valor patrimonial contra volume de cana moída, você vai ver que elas estão absolutamente baratas. Nós estamos falando de empresas que estão sendo cotadas a U$20, U$30 dólares, ou seja, a um sexto do potencial delas de valor”.


O consultor da Archer revela que precisaria haver uma conjunção de tragédias para que o etanol não atingisse as estimativas: “Nós iríamos precisar que as vendas de automóveis caíssem 15% ao ano nos próximos três ou quatro anos e que os atuais donos de carros flex resolvessem colocar, no máximo, 20% de etanol nos seus veículos. É uma conjunção de pressuposições sombrias, que eu não acredito que aconteçam”. Para Correa, se o setor enfrentar escassez de dinheiro, por conta da dificuldade de crédito, valerá a lei da oferta e demanda. “Ou seja, aí os preços do açúcar no mercado internacional irão explodir”.


Investidor do setor, ele não arrisca um palpite entre as empresas. “Nós estamos falando da Cosan, que junto com a Coperaçucar é a maior exportadora de açúcar. A São Martinho é uma empresa extremamente sólida, de gente muito competente, que tem a maior usina de açúcar do mundo e, segundo especula-se, está olhando com carinho a compra da Santelisa Vale. E a Guarani é um grupo europeu, forte. É muito difícil dizer qual eu escolheria. Como eu tenho ações das três, então para mim, tudo bem”, diverte-se.


Quem pretende investir em produtos derivados da cana-de-açúcar deve levar em consideração um último detalhe: a sazonalidade. “Quem quiser ações de commodities tem de saber que tem sazonalidade. Se o cara tem medo de sazonalidade, ele que procure outra coisa. Mas eu sou um consultor da área de risco, focado em commodities agrícolas. Analisando o setor de perto, como tenho tido oportunidade de fazer, estou muito confortável. Eu sei que nós estamos num período complicado para todo mundo, nós temos um deserto complicado para atravessar, mas certamente depois da travessia estaremos mais fortes”, finaliza Correa.

 

 

Receita Líquida (R$ mil)

Ebitda ajustado (R$ mil)

Lucro (prejuízo) líquido (R$ mil)

 

3T09

3T08

Var %

3T09

3T08

Var %

3T09

3T08

Var %

Açúcar Guarani

359.092

260.804

37,7%

 

116.000

71.400

62,5%

-113.006

23.547

-

São Martinho

220.816

127.286

73,5%

64.412

22.843

182,0%

-36.361

-5.777

529,4%

 

 

 

Guarani (ACGU3)

São Martinho (SMTO3)

Oscilação em 12 meses (%)

-78,44

-49,63

Máxima em 12 meses

11,94

30,29

Mínima em 12 meses

1,64

8,62

Valor de mercado

683.904 mil

1.536.800 mil

Observação

Valores de fevereiro de 2009

 

NOTA

O setor sucroalcooleiro considera o ano safra, e não o ano tradicional. Por isso, as empresas do setor listadas em bolsa divulgaram seus resultados mais recentes com a abreviação 3T09, que faz referência ao balanço dos meses outubro, novembro e dezembro da safra 2008/2009.


Autor(a): Larissa Moutinho


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