Nos últimos anos, o Brasil tem ampliado a sua atuação no setor de carnes no cenário mundial. Detentor do maior rebanho de gado de corte do mundo para fins comerciais, o País é o maior exportador mundial de carne bovina. Além disso, as exportações brasileiras desse produto tiveram um crescimento médio de 25,5% desde o ano 2000. E duas empresas, JBS e Marfrig, contribuíram bastante para que isso acontecesse. Conheça mais sobre os fundamentos, números e desempenho no mercado de capitais de cada uma dessas organizações.
Histórias de famílias empreendedoras
As duas empresas têm trajetórias parecidas, pois ambas surgiram de negócios familiares, indo de pequenos açougues a grandes frigoríficos com expressão nacional e internacional.
A história da JBS começou a ser escrita por José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, que comprava boi para revender aos frigoríficos em Anápolis,(GO). Em 1953, ele abriu um açougue chamado Casa de Carne Mineira. Em 1969, depois da ampliação dos negócios a partir da aquisição de alguns abatedouros, a empresa passou a se chamar Friboi, e somente em 2006 recebeu seu nome atual, com as iniciais do fundador José Batista Sobrinho, a JBS. Atualmente, Zé Mineiro e os três filhos que ajudaram a empresa a crescer fazem parte do Conselho de Administração, sendo que, um deles, o Joesley Mendonça Batista, é o presidente. Em abril de 2007, a empresa abriu capital.
Já a Marfrig foi fundada por um jovem que começou a trabalhar no açougue do pai aos 12 anos, mas que aos 16 anos já tinha o seu próprio empreendimento. Marcos Molina dos Santos abriu em 1986 um negócio de distribuição de miúdos. Dois anos mais tarde, ele se tornou um importante distribuidor de cortes bovinos, suínos, aves e pescado, além de vegetais congelados importados, para clientes do estado de São Paulo. No ano de 2000, os sócios fundadores da Companhia constituíram a Marfrig Frigoríficos e Comércio de Alimentos S.A. e desde então a empresa tem dado muitos passos rumo ao crescimento, sempre guiada pelo filho e neto de açougueiros. A empresa abriu o capital em junho de 2007.
Panorama atual – A JBS (JBSS3) é a maior empresa de carne bovina do mundo, com uma capacidade de abate de 57,6 mil cabeças/dia e a maior exportadora mundial de carne industrializada. Ela produz carne bovina in natura e resfriada, carne bovina industrializada, carne suína in natura e resfriada, além de subprodutos bovinos e suínos. Em 2007, com a aquisição da Swift & Company nos Estados Unidos e na Austrália, tornou-se a maior empresa do mundo no setor de carne bovina. A companhia alcançou a marca de primeira do mundo em capacidade de abate – 51,4 mil cabeças por dia – e manteve o destaque nas operações de produção, processamento e exportação nas plantas nacionais e internacionais. Com a nova aquisição, a JBS também conquista o posto de terceira maior produtora e processadora de carne suína nos EUA. A empresa está inserida em 100% dos mercados consumidores do mundo, com plantas instaladas nos quatro principais países produtores de carne bovina – Brasil, Argentina, EUA e Austrália.
Já a Marfrig (MRFG3) é a quarta maior processadora de carne bovina do mundo e uma das dez maiores de frango. As atividades da Marfrig incluem o processamento e distribuição de produtos de carne bovina in natura, processada e iIndustrializada, além da distribuição de outros produtos alimentícios (batata pré-cozida congelada, carne ovina, carne suína, legumes, aves, embutidos, pescados, pratos prontos e massas). Em julho, a empresa divulgou que tinha capacidade de abate diário de 21.100 cabeças de bovinos, 6.400 de suínos, 8 mil de ovinos e 780 mil frangos e 1.030 ton/dia de produtos industrializados/processados. Com a recente confirmação da aquisição do grupo americano OSI, a Marfrig quase triplicará o seu faturamento e passará a operar 60 plantas em nove países. O grupo já tem unidades na Argentina, no Chile, nos Estados Unidos e no Uruguai e passará a atuar, também, na França, na Holanda, na Inglaterra e Irlanda do Norte. Dessa forma, a Marfrig alcançará um número maior de países, – Brasil e mais oito – que a JBS. No entanto, esta última continua sendo maior em faturamento. Saiba mais sobre as empresas no quadro a seguir.
Estratégias
- Buscar oportunidades de investimentos e aquisições.
- Continuar a crescer nos mercados internacional e doméstico.
- Continuar a reduzir custos e aumentar eficiências operacionais.
- Expandir a participação dos produtos mais rentáveis na receita.
- Continuar a crescer nos mercados internacional e doméstico, construindo e solidificando relacionamento com clientes.
- Ampliar a fabricação de produtos de alto valor agregado.
- Expandir as atividades da Companhia de food service.
- Buscar oportunidades de investimentos e aquisições, e aumentar a capacidade produtiva.
Mercado de carnes
Apesar do crescimento nos últimos anos, o início de 2008 foi complicado para as empresas do setor no Brasil em função do embargo imposto pela Rússia. O setor, no entanto, obteve crescimento das vendas para o exterior, estimulado pelo aumento do consumo mundial de carne bovina e abertura de novos mercado para a produção brasileira (Europa Oriental, Ásia e Oriente Médio). A crise financeira nos EUA e na Europa, porém, tem ocasionado a desaceleração global e impacta diretamente nos hábitos de consumo, refletindo diretamente nas empresas que atuam no setor de alimentos.
De acordo com Peter Ping Ho, analista da Planner Corretora de Valores, em 2009, a crise deve se acentuar com a desaceleração da economia global e isso contribuirá para que a população deixe de consumir carne bovina e busque outros tipos de fonte de proteína, como aves e peixes. “Por ser a carne bovina um bem de maior valor, em momentos de crise, o consumidor optará por redução de gastos e canalizará o seu consumo para itens de maior necessidade e dentro do seu poder aquisitivo. Nessas condições, o impacto será mais negativo para a JBS, cujas operações estão concentradas nos EUA. E será menos negativo para a Marfrig, que adquiriu recentemente as operações da OSI”, explica.
Dadas as atuais circunstâncias, com o cenário de desaceleração econômica global e provável recessão nos EUA e Europa, mesmo com foco no investimento para longo prazo, os especialistas acreditam que ainda não é o momento para se posicionar nessas empresas, que poderão sofrer com a queda do consumo de carne bovina em seus mercados de atuação, prejudicando a performance dessas companhias. Para quem possui ações de JBS e Marfrig, a recomendação é a manutenção delas na carteira, para não realizar a venda com prejuízo nesses papéis. “Essas ações são para perfis mais agressivos, não recomendo a compra delas para quem tem um perfil mais conservador”, avisa Alexandre Lignos, analista da Intelect Gerenciamento Financeiro (IGF).
Os prós e contras de JBS e Marfrig
Para Peter, a concentração das operações nos EUA é um ponto negativo para a JBS. “As aquisições recentes da JBS (Swift – terceiro maior frigorífico nos EUA e Smithfield -– quinto maior frigorífico nos EUA) podem prejudicar o desempenho da empresa, pois o choque de cultura entre os criadores de gado nos EUA e a JBS USA criaram diversos entraves operacionais que complicaram o desempenho da companhia nos EUA”, diz. Além disso, a elevação do custo de produção do gado nos EUA em função da alta do preço das commodities agrícolas no 1S08 tem estimulado a retração dessa atividade, com adiamento ou postergação do processo de renovação do gado de corte.
Outro ponto a considerar é a aquisição da National Beef, anunciada em março de 2008 pela JBS. Essa negociação não foi concluída ainda por causa do questionamento feito pelo governo federal e por outros 13 estados norte-americano devido a concentração de mercado contra a concorrência. “Caso a operação seja concluída favoravelmente para a JBS, ela passa a operar com uma capacidade de abate de 41 mil cabeças por dia, somente nos EUA, transformando-se no maior processador de carne bovina nos EUA. No entanto, em função da circunstância atual do mercado, existe um risco de maior alavancagem da JBS, elevando o seu endividamento, apesar do seu recente aumento de capital promovido pela companhia. Com a restrição de crédito no mercado em função da crise financeira, as novas captações necessárias para a atividade do dia-a-dia (capital de giro) se tornam onerosas para a companhia. E caso a operação seja barrada pela justiça, apesar de perder o posto de maior processador de carne bovina nos EUA, a companhia beneficia sua capacidade financeira, ao disponibilizar o recurso que foi reservado para a operação de aquisição para a atividade do dia-a-dia (capital de giro), o que é positivo para a empresa”, analisa Peter.
Já para a Marfrig o panorama, segundo Peter, é mais favorável do que o da JBS. Isso porque a empresa não está tão exposta ao mercado norte-americano. As demais operações da Marfrig, no entanto, coincidem com outras operações da JBS, mas a primeira se destaca-se pela diversificação de produtos (carne bovina e de aves). Além disso, o mercado vê a aquisição da OSI como uma contribuição positiva para a diversificação de atuação da Marfrig. “Os pontos positivos que podem incentivar o investidor a apostar em ações dessa empresa são as margens operacionais da companhia que vem se mantendo apesar do cenário pouco favorável na sua operação na Argentina, por conta de medidas governamentais daquele país para conter a alta da inflação. A aquisição da OSI deve propiciar a abertura de novos negócios relacionados com carne de aves no mercado externo. Vale destacar, no entanto, que o desaquecimento da economia européia, com possibilidade de uma recessão na região, deve prejudicar a sua operação no que tange aos investimentos realizados, o que afetará a sua margem”, diz.
Alexandre tem uma visão diferente. “A minha perspectiva para a Marfrig no curto prazo é neutra, pois vejo a possibilidade de problemas na consolidação dos ativos adquiridos do grupo OSI. Nesse momento, prefiro ser neutro nas recomendações, mas se tivesse dque escolher uma das duas, optaria pela JBS, pois apesar de graficamente as ações terem desempenho parecido, fundamentalmente acredito mais na JBS”. Como podemos perceber, as opiniões dos analistas se dividem, pois as duas empresas passam por reestruturações importantes que deverão impactar positiva ou negativamente o desempenho de suas ações. No entanto, ambos concordam que esse é um momento delicado para investir nesse setor, e que tanto as ações de Marfrig quanto JBS são para perfis de investidores mais arrojados. Se esse for o seu perfil, bons investimentos.
Oscilação em 12 meses : -52,34% (JBS) -36,33% (Marfrig)
Máxima em 12 meses : R$ 10,30 (JBS) R$ 24,30 (Marfrig)
Mínima em 12 meses : R$ 2,56 (JBS) R$ 8,40 (Marfrig)
Retorno em Dividendos : 0,19 % (JBS) 1,05 % (Marfrig)
P/L : 19,32 anos (JBS) 20,80 anos (Marfrig)
Valor de mercado : R$ 5.162.704 (JBS) R$ 2.947.384 (Marfrig)
Receita Líquida (R$ milhões) Ebtida (R$ mil) Lucro Líquido
1S08 1S07 % 1S08 1S07 % 1S08 1S07 %
JBS 12.988,6 2.257,4 475,4 -371,1 49,4 -851,4 467,1 321,4 45,3
Marfrig 2.284,202 1.439.095 58,7 266, 2 167, 2 59,1 91,4 26, 8 240,1
Relacionamento com investidores
Tanto JBS quanto Marfrig possuem sites bastante completos de RI, com informações disponíveis para os investidores. No entanto, a redação da revista InvestMais fez um teste para verificar como está o atendimento dos departamentos das duas empresas. Enviamos um e-mail no campo Fale Conosco dos RI’s dae JBS e Marfrig, como se fôssemos investidores, para pedir esclarecimentos sobre o que as empresas estavam fazendo para que suas ações não tivessem fortes quedas de valorização em função do agravamento da crise mundial. Recebemos apenas a resposta do setor de RI da JBS, que no mesmo dia de nosso contato enviou uma resposta sobre as medidas da empresa para enfrentar a crise. Já o RI da Marfrig não respondeu nosso e-mail até o fechamento dessa matéria.
Autor(a): Karen Jardzwski
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